quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A tecnologia no auxílio do canto

Quando falamos em utilizar recursos tecnológicos muitas pessoas mais tradicionalistas torcem o nariz, dizem que nunca foi preciso nada disso e esse tipo de coisa. Esquecem que a partitura já foi uma inovação, o piano já foi uma inovação, exames de voz foram e para alguns ainda são uma inovação.

Bom, o mundo girou e hoje as pessoas não saem de casa sem smartphones e vivem rodeadas de infinitas quinquilharias que tornam o dia a dia mais prático (óbvio que muita coisa inútil é usada apenas por consumismo, mas esse assunto fica pro boteco).

Na voz o cenário não é diferente, hoje em dia é comum ver fonoaudiólogos aplicando bandagens, laser, eletroestimulação, cada um desses com seus estudos, utilidades e métodos específicos de utilização, como tipos de corrente elétrica, posicionamento das bandagens nos músculos, etc. Teoricamente, eles sabem o que estão fazendo, conheço profissionais muito sérios que gostam e que não gostam, cada um tem seu estilo. Importante frizar que existem cursos e certificações para cada uma dessas atividades.

Mas o foco aqui é canto, e podemos dividir essa tecnologia em coisas mais simples e físicas e softwares de computador, que vou tentar listar:

Tubos de ressonância: tubos de vidro, de silicone, canudos, com água, sem água, com espessante, etc. Infinitas possibilidades e usos dos mais variados. Vou colocar aqui nessa categoria copos e demais aparelhos para o treino de trato vocal semi ocluído, que já mencionei AQUI

Cachimbo de bola: também é um ETVSO, mas vem com uma ferramenta visual para verificação do fluxo de ar, eu adoro.

Prancha de equilíbrio e/ou trampolim: para estimular a utilização da musculatura que sustenta o corpo e participa do controle respiratório. Nunca usei no meu estúdio, mas minhas amigas Thays Vaiano e Flávia Badaró do Atletas da Voz e da Maratona Vocal indicam o trampolim e têm bastante sucesso.
Máscara de retorno ou ressonância: Como os hearfones, utilizadas para que o cantor ouça com fidelidade e precisão o que estão executando. Herança de cantar com um balde na frente, cantar no canto da sala, cantar com as mãos em concha nos ouvidos, etc. Nada de novidade, porém mais prático. 
Nebulizador: Não é exatamente para o canto, mas se você é cantor, tenha um, hidratação na hora. Atenção, use apenas e somente e nada mais, soro fisiológico. Prefira soro à água e jamais adicione remédio sem orientação médica, você pode arruinar sua voz. É sério...

Medidor de pressão subglótica: Aqui uma engenhoca que parece saída do filme dos caça fantasmas, mas que indica o quanto de “força aérea” você está mandando paras as suas pregas vocais. É ótimo, simples de utilizar, mas muito caro para a nossa realidade tupiniquim, cerca de 700 dólares.
EGG: O aparelho de eletroglotografia mede o nível de contato das suas pregas vocais, grande indicador de tensão ou de modos de fonação. É preciso um bom nível de conhecimento para entender os dados e também fere o bolso (750 doletas).
Máscara de glotograma de fluxo: Aqui algo incrível para medir com precisão os modos de fonação que o cantor está utilizando. Outro aparelho que exige muito conhecimento e zeros disponíveis.

Esses três últimos instrumentos tive contato no curso Ciência da Voz Cantada na Suécia mas não os possuo, infelizmente.
Com o Professor Sundberg e a máscara
Softwares: Aqui vou dividir em duas categorias, os gratuitos e os pagos.

Grátis: Programas como o MADDE,  um sintetizador de voz, o spectrum RTSect, o espectrograma Wavesurfer e o Sopran são ótimos para mostrar aos alunos em tempo real como está a afinação, a ressonância, indicam até mesmo se há muito ou pouco contato nas pregas vocais através da relação entre os primeiros harmônicos, você pode verificar os formantes, ataques, fluxo de ar, intensidade da voz, quebras de registro, analisar vibrato, etc. São fantásticos e acho que todo professor de canto e cantor tem muito a ganhar aprendendo a utilizá-los, e nem são tão difíceis. Entendendo o conceito a prática é simples, só bater o olho e ver a voz. É possível até diferenciar tipos de distorções vocais. Que tal, hein?
Minha versão sintética no MADDE depois de ter a voz "revelada" na filtragem inversa. 

Pagos: Programas como o Voce Vista 3 e o Voce Vista Video reúnem todas as possibilidades dos gratuitos e, no caso do Video, vão muito além. Fazer trabalho de ajuste de ressonância (formant tunning) com ele é a coisa mais fácil que existe. Sabe quando você ouve uma voz ou efeito e quer tentar cantar igual? (Alô cantor de cover) Com esses programas isso fica muuuuuito mais fácil, pois você consegue ver a voz que quer fazer e checar se a sua está de acordo. Imagine você, professor, que passa um exemplo e o aluno não pega de ouvido. Que tal se ele puder olhar qual a diferença?

Além do professor de canto, isso é muito útil para o cantor que treina sozinho (ou seja, todo mundo que não faz aula de canto 7 vezes por semana), pois ele pode contar com uma forma prática de feedback, que é a função principal de um bom professor, saber indicar quando a coisa está boa e quando não está. Claro que o programa não diz o que fazer para corrigir, mas se você tiver conhecimento suficiente, vai entender os indícios que ele dá.
Se você puder comprar o Voce Vista Video, compre, não vai se arrepender. O idealizador é um alemão extremamente simpático que teve a ideia para treinar overtone singing, e ele é gênio nisso.

Lógico que todos esses treinos são possíveis sem esses aparelhos, mas a ideia aqui não é substituir o profissional e sim auxiliá-lo. Recursos visuais facilitam muito a compreensão e aprendizado, quem já utilizou da forma correta sabe o ganho que isso implica e como o aprimoramento fica mais rápido e o treino mais eficiente.

Lógico também que muita coisa é inventada apenas para vender e ganhar dinheiro e muita tranqueira acaba depois se mostrando pouco útil ou complicando mais a situação, mas essas logo caem no esquecimento. Cabe a nós filtrarmos a oferta de “milagres” e buscar aquilo que de fato nos ajuda.
Com Wolfgang Saus, idealizador do Voce Vista Video e mestre do overtone singing. Professor da Anna Maria Hefele

Não vou me alongar para falar aqui de gravação de aula em áudio ou vídeo, que já são práticas bastante comuns, tampouco de aulas online, que já esmiucei AQUI


E você, gosta de recursos tecnológicos? Quais utiliza? Algum diferente? Que acha dessa ideia? Comente aí!!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Configuração da laringe nos Modos de Fonação

Em texto anterior (VEJA AQUI) falei sobre os diferentes Modos de Fonação, é hora de ver como ficam as pregas vocais e a laringe em cada um deles, para tentarmos compreender essas variações.

Temos uma série de músculos influenciando na forma como as pregas vocais vão vibrar, e ao longo da história uma infinidade de termos foram utilizados para denominar os diferentes timbres que elas produzem, desde os registros de peito, cabeça e falsete, que antes se referiam à ressonância e depois, com o começo das investigações fisiológicas, migraram para a laringe, até expressões que surgiram como marketing de cada método lançado por aí.

Os modos de fonação foram sendo aperfeiçoados ao longo dos anos de estudos e ficaram famosos na ciência vocal com o trabalho do professor e foneticista sueco Dr.Johan Sundberg, mas não parou por aí. Depois dele, muitos outros estudos e cientistas pelo mundo exploraram essa abordagem, comparando o uso dos MdF em diferentes gêneros musicais, criando um banco de sons de cada modo e buscando a fundo a resposta do que cada um queria dizer.

O austríaco, Christian Herbst é um desses cantores e estudiosos que encontrou nos Modos de Fonação um norte mais preciso e desprovido de vontade de vender produto, ou de subjetividade que eles possuem por sua essência e origem investigativa, e aqui vou falar um pouco sobre o que ele trouxe em alguns artigos, incluindo um com o próprio Sundberg e mais um povo da Alemanha, Republica Tcheca e Suécia.

Herbst investigou diferentes emissões vocais e fotografou a laringe nos diferentes modos, e com essas informações conseguiu traçar um paralelo com tipos diferentes de adução (fechamento) das pregas vocais e registros, que vou tentar expandir aqui.

Antes de entrar nos Modos, vamos falar de adução, o tal do fechamento da glote, a hora em que uma prega vocal se aproxima da outra.

Em suas pesquisas, ele encontrou 2 tipos diferentes de adução, a quais chamou de Adução Membranosa e de Adução Cartilaginosa.
Basicamente, na adução membranosa, quem se aproxima é a parte da membrana da prega vocal, onde tem a mucosa que vibra, na adução cartilaginosa, aproximam-se as cartilagens aritenóides. Podemos deduzir que na primeira existe a ação do TA-Vocalis aumentando a borda das pregas vocais, e na segunda existe a ação dos Aritenóideos, ou InterAritenóideos, como preferir, aproximando as cartilagens, veja o esquema:
Aqui é possível ver na coluna esquerda, do "falsetto" que o musculo vocal está fininho, e mesmo com o fechamento das cartilagens no fundo (parte de baixo da laringe) o meio das pregas vocais não se apertam, diferente da coluna da direita, do "chest" onde o músculo vocal mais "gordinho" já cria contato nas pregas vocais mesmo com as cartilagens aritenóides mais "frouxas".

Tente identificar o mesmo efeito nas fotos abaixo
Para este pesquisador, a diferença entre voz de peito e falsete está no músculo TA interno, o vocalis, que quando acionado aumenta a borda de contato entre as pregas vocais, tal afirmação concorda com métodos de canto como o Somatic Voicework e os derivados do Speech Level Singing, como IVTOM e IVA, que utilizam essa nomenclatura tradicional.

Voltando aos modos de fonação...

No Modo Soproso temos uma abertura nas cartilagens que deixa escapar o ar, trazendo a sonoridade que batiza o modo, veja na imagem como o contato das pregas vocais não é completo. 

Aqui então, é possível dizer que os músculos AA estão descansando, CAL trabalha pra manter a aproximação das pregas vocais e e o Vocalis também dorme, é o famoso "falsete" nestes estudos chamado de "falsete abduzido", isso em qualquer sexo.

Apesar de falar em falsete, é importante dizer que não estou falando de grave e agudo, tudo aqui vai acontecer na mesma nota, e aí fica minha crítica, pois ninguém fala em falsete grave, mas sim, é possível utilizar a mesma configuração do falsete no grave... Bizarro, hein?

No Modo Fluido, CAL aproxima as pregas vocais, AA estão tranquilões na rede e Vocalis aciona. Herbst chama esse compotamento de "falsete aduzido", a boa e velha "voz de cabeça" para alguns. Você tem aqui um contato maior das pregas vocais, mas muito sutil, ainda com abertura da fenda posterior, que não é doença...

Já o Modo Neutro de fonação requer a ação de todo mundo, CAL, AAs e Vocalis. Todos participando de uma adução completa sem qualquer escape de ar, gerando um som cheio e vigoroso, o que muitas pessoas chamam de "voz de peito" (mas rola no grave e no agudo também). 

Lembrando, como falei no texto anterior, que essas alterações ocorrem de forma contínua, podemos supor que o "mix" está localizado entre Fluido e Neutro, podendo pender mais pra um ou mais pra outro, deixando a voz mais "leve" ou mais "pesada".
Chegamos ao final da jornada falando sobre o Modo Pressed, traduzido aqui como Tenso, mas que prefiro chamar de Firme, por que tensão é vista de forma perigosa.

Quem leu o texto anterior vai lembrar daquele modo intermediário e entender as coisas.

CAL, AAs e Vocalis já esão acionados, o que pode ser feito?
Não há consenso ou definição sobre esse tema, podemos supor uma ação do TA externo, já que neste modo há aproximação das pregas vestibulares, podemos supor que isso é fruto do aumento da pressão sub-glótica que tal modo solicita ou até pode ser algo externo ou um uso mais forte de todos esses músculos. 

Nas imagens abaixo fica claro como há o aumento de contato.
Modos de maior contato são observados normalmente em cantores de rock, gospel, blues e no belting. Também é possível encontrar este ajuste sendo chamado de Compression pelo Brett Manning, Curbing pelo CVT, Clamp pela Antropofisiologia Vocal, e muitos outros termos, mas não importa como você vai chamá-lo, apenas saiba que aqui, como há muito contato, você não vai querer forçar, então o volume acaba sendo reduzido, ao menos até desenvolvermos domínio completo desta função.

Este é o modo que muita gente chama de "errado", ou "voz na garganta", mesmo quando executados com perfeição

No neutro e mais ainda no firme, todos os músculos adutores estão bastante ativos, e esses músculos são compostos principalmente por fibras de contração rápida (lembre-se que a adução existe pra gente não deixar nada passar pro pulmão, então tem que fechar rápido) que têm resistência baixa. Exercitar esses músculos pra quem quer cantar gêneros musicais mais "pesados" é vital, e deve ser feito com paciência e continuidade, para podermos suportar tal nivel de exigência física pelo tempo que for necessário, sem sofrermos com fadiga ou abusando da pobre da mucosa, espremida e raspando aí no meio.

E você, já treinou suas duas formas de adução e todos os seus Modos de Fonação hoje?

domingo, 25 de setembro de 2016

Rock, rock e mais rock

Em outubro e novembro participarei de dois eventos sobre a voz no rock.

Dias 1 e 2 de outubro acontecerá o 3º Congresso Brasileiro de Profissionais da Voz Rock no Souza Lima em São Paulo, e serei palestrante mais uma vez, falando sobre Acústica Vocal e o Canto Rock, e também participarei como mediador de alguns outros participantes.


Em novembro, no dia 5 estarei em Taubaté/SP para um evento inédito, a 1ª Maratona Vocal do Vale do Paraíba. Será um sonho realizado, participar de um dia inteiro multidisciplinar de cursos sobre voz cantada. Teremos excelentes profissionais nas áreas da otorrinolaringoscopia, fonos e fisioterapeuta especializadas em processamento auditivo, condicionamento e preparação de cantores de alta demanda, um brilhante professor de canto lírico, que também estuda fonoaudiologia, e eu, falando sobre os ajustes e uso da voz em estilos populares, principalmente no rock. Melhor que isso, só se fosse de graça, e é. Mas inscreva-se já, as vagas são limitadas. Mais informação nos cartazes.

Além disso, no dia 6 continuarei na cidade ministrando aulas particulares em formato de workshop individual, em dupla ou trio.




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Jeanie Lovetri no Brasil

Tive muita sorte por começar a cantar tendo como professora a maestrina Sandra Espiresz, que se tornou uma grande amiga e fonte de inspiração. Umas das coisas que ela me trouxe foi conhecer o trabalho de Jeanie LoVetri, e seu estilo de ensino de canto baseado em exercícios funcionais, dedicados a resolver cada necessidade técnica que o cantor teria.
Em 2010 Jeanie veio ao Brasil, e pude presenciar como aquele trabalho dela era incrível, e isso mudou minha forma de ver o canto, de ensinar o canto, e ainda me inspirou a criar esse site e a escrever sobre voz.

Jeanie LoVetri voltará ao Brasil em janeiro de 2017, e nem preciso dizer o quanto estou empolgado. Ela ministra um curso de seu método, o Somatic Voicework TM, e pela primeira vez nós, da América Latina, teremos a oportunidade de nos certificar no Level 1 sem ter que irmos pra lá gastando alguns milhares de dólares. Em 2017 esse curso vai acontecer na Austrália também, pra quem se interessar...

Fica aqui a recomendação desse curso incrível, que ainda será acompanhado de um workshop e masterclass. 

Estou mais feliz ainda por participar da vinda dessa monstra pra cá, já que é uma iniciativa do Vocal-SP (grupo de estudos de canto e voz que participo).


Então não perca essa oportunidade, está muito mais barato que nos EUA, e isso sem contar passagem, hospedagem e tudo mais, e o principal, pode mudar as coisas pra você, como mudou pra mim, mas corra, as vagas são limitadas, e vem gente de muitos outros estados e países próximos para esse evento histórico.

Até lá!!



quinta-feira, 21 de abril de 2016

A voz de Freddie Mercury - Ciência x Sensacionalismo

Em fevereiro de 2016, 4 cientistas (dentre eles, o Dr. Lindestad, que tive o prazer de conhecer em 2012 e o Daniel Zangger-Borsch que já citei em texto sobre distorções vocais) publicaram um artigo fazendo uma análise sobre a voz do Freddie Mercury. Infelizmente, uma interpretação desse estudo muito ruim caiu na internet e está causando tumulto, e agora tem a tradução dela pro português piorando ainda mais as coisas. É hora de esclarecer as coisas.
Obviamente, o estudo não foi feito com videolaringoscopias ou qualquer tipo de exame no próprio Freddie Mercury, pois ele morreu em 1991. Arquivos de áudio, gravações a capella e de entrevistas foram utilizados para obtenção de análise acústica e um cantor (o Daniel) imitando o próprio foi filmado.

De cara, temos algumas variáveis a considerar: gravações comerciais são feitas com microfones, que modificam de alguma forma o espectro de harmônicos na voz, e mais, podem ser modificadas por equalização e diversos efeitos como compressor, dobra, delay, etc.. Além disso, um cantor imitando o Freddie Mercury pode soar parecido sem fazer exatamente as mesmas manobras fisiológicas, infelizmente não temos o áudio da gravação para comparar com o original.

Vamos aos resultados obtidos na pesquisa:

Analisando entrevistas, tentaram determinar a frequência média da voz falada de Freddie. Em cada entrevista, uma média diferente foi observada, mas a média da média, deu 117.3Hz, que, segundo o estudo, é tipicamente encontrada em cantores barítonos, mas essa terminologia das classificações vocais é bastante questionada atualmente, principalmente se tratando de canto popular. Na versão veiculada pela mídia, Freddie é descrito como um super-humano por ter voz de barítono e cantar notas de tenor, uma interpretação bastante peculiar do artigo.
Nas músicas que analisaram, encontraram um alcance de F#1 a G4 (ou F#2 a G5 dependendo da notação), com grande domínio de registro (controle de TA e CT) e de Modos de Fonação (entre soproso e tenso), porém, não há dado fisiológico para afirmar isso.

O vibrato dele tem uma média de 7.2Hz, ou seja, 7.2 oscilações por segundo, que é mais rápido que um vibrato desejado no canto clássico. Na versão midiática, descrevem isso como “a corda vocal vibra mais rápido que o normal”. Se a prega vocal vibrasse mais rápido que o normal ele estaria cantando com a afinação mais aguda do que deveria, ou seja, desafinado, o que não tem qualquer relação com produção de vibrato. Esse vibrato mais rápido, descrito no estudo, é tido como próximo ao tremor de voz. Na “interpretação”, podemos ler o absurdo dizendo que é uma marca que nem o Pavarotti conseguiu. Entenda, no canto lírico, um vibrato com essa variação é totalmente rejeitado e considerado mal feito, pois esteticamente não é aceito (No canto clássico ocidental o ideal está entre 5.4Hz e 6.9Hz, dependendo da idade e envolvimento emocional do o trecho cantado). No rock não há essa restrição estética, e encontramos cantores com vibratos mais rápidos e mais lentos, independente da qualidade do som produzido.

Uma variação dessa interpretação do estudo “revela” que Mr. Mercury é capaz de realizar uma técnica rara chamada de sub harmônicos, similar ao dos milenares cantores da Mongólia. O que isso quer dizer na realidade? Sub harmônico é o que chamamos de distorção vocal, ou mais popularmente drives, e por mais que eu goste do Fredão, e ele é dos meus favoritos, não dá pra dizer que é raro, certo? Quem escreveu a matéria não fazia a menor ideia do que estava escrevendo.
Esse efeito foi visto na análise acústica tanto dos áudios originais quanto do “cover” gravado pelo Daniel ZB, e nas filmagens da laringe do Borsch perceberam a ação das pregas vestibulares causando a distorção, que é o mecanismo fisiológico utilizado pelos praticantes do canto gutural mongol, como visto em artigos anteriores, como do próprio Dr. Lindestad.

O mais interessante, é que todos esses pontos que mencionei (e outros mais) a serem considerados estão no artigo original, mas o sensacionalismo feito em sites de “notícias” é maior que a vontade de passar a informação correta. Frases como "ciência comprova quem Freddie Mercury é omaior cantor da história" chama mais a atenção que "Artigo faz análise da voz de Freddie Mercury e não cria listas bizarras pois esse não é o trabalho de alguém sério"
"Pra quem divulgou o artigo sobre mim"
Eu já disse, adoro Queen e acho o Freddie Mercury um gênio, provavelmente um dos 10 vocais mais importantes da história do rock, mas tratar ciência vocal como “prova de miraculismo” é revoltante, pois quem não for olhar o original vai sair repetindo essas viagens e o mito sobre o canto vai perdurar. Um estudo sério foi feito por cientistas sérios e uma penca de “jornalistas” acabam com tudo por pura preguiça de conferir as coisas, ou falta de conhecimento sobre o assunto, ou só a boa e velha ganância mesmo.

Como sempre digo, cheque as fontes, investigue e não compartilhe informação que você não tem certeza que é real. 

Quem quiser ler o original (melhor do que sair compartilhando meu texto sem saber se estou falando a verdade também ;): http://www.tandfonline.com/doi/full/10.3109/14015439.2016.1156737
Dr. Baken, eu e Dr. Lindestad

domingo, 17 de abril de 2016

Workshop de distorções vocais

Hora de fazer um relato de como foi o Workshop do dia mundial da voz, sobre distorções vocais.

O evento foi organizado pelo Grupo de Estudos Vocal SP, e estava com o espaço lotado. Professores de canto em universidades, professores de canto particulares, cantores de MPB, blues, teatro musical, Heavy Metal, cantores líricos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), uma médica, cantores da noite de rock e cantores amadores formavam o público mais heterogêneo que um curso de distorções vocais já recebeu no planeta. Todos interessados em expandir horizontes e conhecer os diferentes tipos de distorções e como realizá-las.
O curso começou com a Dr. Joana Mariz fazendo uma brilhante introdução sobre o uso das distorções na fala, na expressividade humana, na música brasileira em cantoras como Elza Soares e Elis Regina, e até mesmo no canto erudito.

Joana estava grávida, com seu bebê que poderia nascer a qualquer momento, e demonstrou que não há empecilhos para cantar de forma distorcida, mas como ela mesma questionou. Distorcida em relação a que? Todas as vozes são normais, ainda precisamos de termos melhores para explicar o que chamamos de drives, guturais e vozes sujas e rasgadas.
Depois foi a vez da Marcella Martinez explicar as diferenças entre as vozes realizadas com ciclos periódicos de vibração nas pregas vocais e as com ciclos aperiódicos e/ou alteradas pelo uso do trato vocal.
Uma extensa pesquisa com uso das vozes distorcidas ao longo da história no mundo foi apresentada por mim, Mauro Andrea, começando com cantos tribais na África, passando por cantos tribais no Brasil, música tradicional da Mongólia, Tibet, Sardenha, Flamenca, Árabe e até do Alasca, passando pelo Negro Spiritual dos escravos nos EUA em canções como Amazing Grace e Happy Day, entrando no Gospel, Jazz, Blues e Soul, com gênios como Lavern Baker, Aretha Franklin, Frank Sinatra até chegar no início do rock e pré rock de Elvis, Little Richard e Ray Charles e depois com bandas  de rock como Beatles, Led Zeppelin, Queen, Aerosmith, etc.
Depois de demonstrar que as distorções não surgiram no rock, não dava pra não passear pelo gênero que mais explorou as diversas variações de distorções, o Heavy Metal. Desde Motorhead e Judas Priest passando por Dio, Iron Maiden, Metallica, Guns n Roses, Skid Row, Nirvana, e bandas mais extremas como: Slayer, Cannibal Corpse, Accüsed, Mayhem, Carcass, Cradle of Filth, etc. Até chegar ao cenário atual, com Slipknot, Avenged Sevenfold, Asking Alexandria, etc.
Atalmente as distorções estão em todo canto, na Broadway, nos animes, no sertanejo, na MPB e até no funk
Antes de entrarmos na parte prática do curso, tivemos uma visão incrível da música experimental que utiliza vozes distorcidas de artistas como: Bjork, Arrigo Barnabé, e Tanya Tagaq, além da "ex-beatle" Yoko Ono.
Conhecemos a opinião de alguns cantores e professores como: Jorn Lande, Bruce Dickinson, Daniel Zangger-Borsch e Mark Baxter sobre o uso das distorções e, depois de uma paua pro merecido almoço, entramos nos treinos e exercícios.

No grupo, tivemos a ideia de explorar e demonstrar ao público os principais métodos de enino de distorção vocal, começando pelo Complete Vocal Technique da dinamarquesa Cathrine Sadolin, que tem um material extremamente organizado e uma ampla pesquisa divulgada sobre diversos ajustes que ela batiza de: Distortion, Rattle, Growl, Grunt, Creak e Creaking e suas variações. Cathrine fez estudos incríveis com cantores tendo o auxílio do laringologista Julian MacCglashan demonstrando imagens e analises acústicas dos ajustes propostos.
Foi a hora de todo mundo experimentar sons diferentes, e já começamos a ver cantores líricos experimentando Growls e cantores de MPB treinando diferentes tipos de sons, a empolgação era enorme e eu tinha que conter o tempo todo aquela ótima energia que vinha.
O segundo método abordado foi o de Melissa Cross, o Zen of Screaming. Marcella fez todo mundo explorar os "Extrems" e pular para facilitar o "Death". Nessa hora chamamos um cantor da platéia que canta, entre outros, Lamb of God, que por coincidência tem o vocalista como aluno da Melissa Cross, e com poucas dicas nossa e conseguiu uma emissão muito mais confortável e poderosa.
O terceiro método praticado foi o do brasileiro Ariel Coelho, que faz um estudo minucioso nas estruturas musculares que produzem as vozes distorcidas e as divide entre "drives" glóticos, supraglóticos e mistos. O controle de pressão supraglótica, trabalhado por Ariel a exaustão fez grande sucesso e suas inúmeras divisões de tipos de distorções foram exploradas por todos com grande curiosidade e entusiasmo.

O conhecimento de 3 formas, com suas diferenças e semelhanças, de trabalhar mostrou a todos que não há mistério no treino de vozes distorcidas, apenas precisamos de paciência, cuidado com a saúde vocal, ousadia e, principalmente, seguir metodologias definidas para atingir resultados seguros.
Na última parte do curso, Nani voltou para explorar o uso da tecnologia no aprimoramento do canto e pudemos ver como efeitos simples de delay, double, reverb e oitavador, efeitos esses que são utilizados constantemente por profissionais do mais alto nível como Bruce Dickinson, Rob Halford, Russen Allen, etc., auxiliam o cantor a manter a saúde vocal ao longo de turnês extensas ou mesmo em shows simples.
Para finalizar, Marcella e eu mostramos exames de videolaringoscopia que realizamos com o Dr. Luciano Neves, e todos puderam ver pausadamente o que acontece com as estruturas da laringe em diversos ajustes de distorção e como alguns diferentes nomes em diferentes métodos são causados por ajustes iguais e ajustes iguais recebem nomes diferentes em métodos diferentes, causando confusão na hora que o cantor resolve estudar e pesquisar o tema.
O time de ministrantes do workshop: Mauro, Joana, Marcella e Nani
Termino esse texto com um agradecimento enorme às Monicas e toda equipe do Vocal SP pelo empenho e dedicação, ao Renato, marido da Marcella, pela ajuda com o equipamento, aos meus colegas ministrantes pelo brilhante e intenso trabalho, ao Dr. Luciano Neves pela dor no braço em mais de uma hora de laringoscopia, ao Ariel Coelho, pelas aulas, cursos, autorização e ajuda com seu método, e, principalmente, aos participantes do curso, que demonstraram um interesse fantástico, e melhor, que saíram de lá sabendo como treinar pra atingir os objetivos, o que nos deixou extremamente felizes, ainda mais com o retorno que tivemos e os pedidos da reedição do workshop, até mais extenso, já que as 8 horas passaram voando.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Novo curso de distorções vocais

No final de 2015 fui convidado para fazer parte do grupo de estudos de canto e voz que realiza vários eventos, cursos e workshops, o VocalSP, o que me deixou muito contente, por ser um grupo recheado de profissionais incríveis, pessoas hiper competentes, com currículos extensos e uma enorme paixão pelas descobertas sobre o canto.

E para marcar essa nova etapa, o grupo resolveu montar um workshop de um dia inteiro sobre distorções vocais,e  eu serei um dos ministrantes
Esse super completo sobre as distorções vocais (os famosos drives e guturais), promovido pelo VocalSP, vai abordar:
Distorções na fala e expressividade
Uso das distorções no teatro e dramarturgia em geral.
Distorções na música em diversos estilos ao longo da história (rock, blues, MPB, jazz, sertanejo, gospel, música folclórica e etc.).
Explicações dos ajustes realizados em diversos tipos de distorção, de acordo com as mais avançadas pesquisas no Brasil, Suécia, Dinamarca, Itália e EUA.
Pré-requisitos para a realização plena e saudável desses efeitos.
Exemplos sonoros.
Práticas de treino e exercícios.
Aplicação com uso de tecnologia.
Cuidados para a manutenção e desenvolvimento dos ajustes necessários.



Inscrições pelo inbox do grupo VocalSP, ou pelo e-mail vocalvocalsp@gmail.com

Mais informações no cartaz abaixo: