quarta-feira, 14 de junho de 2017

Configuração da laringe nos Modos de Fonação

Em texto anterior (VEJA AQUI) falei sobre os diferentes Modos de Fonação, é hora de ver como ficam as pregas vocais e a laringe em cada um deles, para tentarmos compreender essas variações.

Temos uma série de músculos influenciando na forma como as pregas vocais vão vibrar, e ao longo da história uma infinidade de termos foram utilizados para denominar os diferentes timbres que elas produzem, desde os registros de peito, cabeça e falsete, que antes se referiam à ressonância e depois, com o começo das investigações fisiológicas, migraram para a laringe, até expressões que surgiram como marketing de cada método lançado por aí.

Os modos de fonação foram sendo aperfeiçoados ao longo dos anos de estudos e ficaram famosos na ciência vocal com o trabalho do professor e foneticista sueco Dr.Johan Sundberg, mas não parou por aí. Depois dele, muitos outros estudos e cientistas pelo mundo exploraram essa abordagem, comparando o uso dos MdF em diferentes gêneros musicais, criando um banco de sons de cada modo e buscando a fundo a resposta do que cada um queria dizer.

O austríaco, Christian Herbst é um desses cantores e estudiosos que encontrou nos Modos de Fonação um norte mais preciso e desprovido de vontade de vender produto, ou de subjetividade que eles possuem por sua essência e origem investigativa, e aqui vou falar um pouco sobre o que ele trouxe em alguns artigos, incluindo um com o próprio Sundberg e mais um povo da Alemanha, Republica Tcheca e Suécia.

Herbst investigou diferentes emissões vocais e fotografou a laringe nos diferentes modos, e com essas informações conseguiu traçar um paralelo com tipos diferentes de adução (fechamento) das pregas vocais e registros, que vou tentar expandir aqui.

Antes de entrar nos Modos, vamos falar de adução, o tal do fechamento da glote, a hora em que uma prega vocal se aproxima da outra.

Em suas pesquisas, ele encontrou 2 tipos diferentes de adução, a quais chamou de Adução Membranosa e de Adução Cartilaginosa.
Basicamente, na adução membranosa, quem se aproxima é a parte da membrana da prega vocal, onde tem a mucosa que vibra, na adução cartilaginosa, aproximam-se as cartilagens aritenóides. Podemos deduzir que na primeira existe a ação do TA-Vocalis aumentando a borda das pregas vocais, e na segunda existe a ação dos Aritenóideos, ou InterAritenóideos, como preferir, aproximando as cartilagens, veja o esquema:
Aqui é possível ver na coluna esquerda, do "falsetto" que o musculo vocal está fininho, e mesmo com o fechamento das cartilagens no fundo (parte de baixo da laringe) o meio das pregas vocais não se apertam, diferente da coluna da direita, do "chest" onde o músculo vocal mais "gordinho" já cria contato nas pregas vocais mesmo com as cartilagens aritenóides mais "frouxas".

Tente identificar o mesmo efeito nas fotos abaixo
Para este pesquisador, a diferença entre voz de peito e falsete está no músculo TA interno, o vocalis, que quando acionado aumenta a borda de contato entre as pregas vocais, tal afirmação concorda com métodos de canto como o Somatic Voicework e os derivados do Speech Level Singing, como IVTOM e IVA, que utilizam essa nomenclatura tradicional.

Voltando aos modos de fonação...

No Modo Soproso temos uma abertura nas cartilagens que deixa escapar o ar, trazendo a sonoridade que batiza o modo, veja na imagem como o contato das pregas vocais não é completo. 

Aqui então, é possível dizer que os músculos AA estão descansando, CAL trabalha pra manter a aproximação das pregas vocais e e o Vocalis também dorme, é o famoso "falsete" nestes estudos chamado de "falsete abduzido", isso em qualquer sexo.

Apesar de falar em falsete, é importante dizer que não estou falando de grave e agudo, tudo aqui vai acontecer na mesma nota, e aí fica minha crítica, pois ninguém fala em falsete grave, mas sim, é possível utilizar a mesma configuração do falsete no grave... Bizarro, hein?

No Modo Fluido, CAL aproxima as pregas vocais, AA estão tranquilões na rede e Vocalis aciona. Herbst chama esse compotamento de "falsete aduzido", a boa e velha "voz de cabeça" para alguns. Você tem aqui um contato maior das pregas vocais, mas muito sutil, ainda com abertura da fenda posterior, que não é doença...

Já o Modo Neutro de fonação requer a ação de todo mundo, CAL, AAs e Vocalis. Todos participando de uma adução completa sem qualquer escape de ar, gerando um som cheio e vigoroso, o que muitas pessoas chamam de "voz de peito" (mas rola no grave e no agudo também). 

Lembrando, como falei no texto anterior, que essas alterações ocorrem de forma contínua, podemos supor que o "mix" está localizado entre Fluido e Neutro, podendo pender mais pra um ou mais pra outro, deixando a voz mais "leve" ou mais "pesada".
Chegamos ao final da jornada falando sobre o Modo Pressed, traduzido aqui como Tenso, mas que prefiro chamar de Firme, por que tensão é vista de forma perigosa.

Quem leu o texto anterior vai lembrar daquele modo intermediário e entender as coisas.

CAL, AAs e Vocalis já esão acionados, o que pode ser feito?
Não há consenso ou definição sobre esse tema, podemos supor uma ação do TA externo, já que neste modo há aproximação das pregas vestibulares, podemos supor que isso é fruto do aumento da pressão sub-glótica que tal modo solicita ou até pode ser algo externo ou um uso mais forte de todos esses músculos. 

Nas imagens abaixo fica claro como há o aumento de contato.
Modos de maior contato são observados normalmente em cantores de rock, gospel, blues e no belting. Também é possível encontrar este ajuste sendo chamado de Compression pelo Brett Manning, Curbing pelo CVT, Clamp pela Antropofisiologia Vocal, e muitos outros termos, mas não importa como você vai chamá-lo, apenas saiba que aqui, como há muito contato, você não vai querer forçar, então o volume acaba sendo reduzido, ao menos até desenvolvermos domínio completo desta função.

Este é o modo que muita gente chama de "errado", ou "voz na garganta", mesmo quando executados com perfeição

No neutro e mais ainda no firme, todos os músculos adutores estão bastante ativos, e esses músculos são compostos principalmente por fibras de contração rápida (lembre-se que a adução existe pra gente não deixar nada passar pro pulmão, então tem que fechar rápido) que têm resistência baixa. Exercitar esses músculos pra quem quer cantar gêneros musicais mais "pesados" é vital, e deve ser feito com paciência e continuidade, para podermos suportar tal nivel de exigência física pelo tempo que for necessário, sem sofrermos com fadiga ou abusando da pobre da mucosa, espremida e raspando aí no meio.

E você, já treinou suas duas formas de adução e todos os seus Modos de Fonação hoje?

domingo, 25 de setembro de 2016

Rock, rock e mais rock

Em outubro e novembro participarei de dois eventos sobre a voz no rock.

Dias 1 e 2 de outubro acontecerá o 3º Congresso Brasileiro de Profissionais da Voz Rock no Souza Lima em São Paulo, e serei palestrante mais uma vez, falando sobre Acústica Vocal e o Canto Rock, e também participarei como mediador de alguns outros participantes.


Em novembro, no dia 5 estarei em Taubaté/SP para um evento inédito, a 1ª Maratona Vocal do Vale do Paraíba. Será um sonho realizado, participar de um dia inteiro multidisciplinar de cursos sobre voz cantada. Teremos excelentes profissionais nas áreas da otorrinolaringoscopia, fonos e fisioterapeuta especializadas em processamento auditivo, condicionamento e preparação de cantores de alta demanda, um brilhante professor de canto lírico, que também estuda fonoaudiologia, e eu, falando sobre os ajustes e uso da voz em estilos populares, principalmente no rock. Melhor que isso, só se fosse de graça, e é. Mas inscreva-se já, as vagas são limitadas. Mais informação nos cartazes.

Além disso, no dia 6 continuarei na cidade ministrando aulas particulares em formato de workshop individual, em dupla ou trio.




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Jeanie Lovetri no Brasil

Tive muita sorte por começar a cantar tendo como professora a maestrina Sandra Espiresz, que se tornou uma grande amiga e fonte de inspiração. Umas das coisas que ela me trouxe foi conhecer o trabalho de Jeanie LoVetri, e seu estilo de ensino de canto baseado em exercícios funcionais, dedicados a resolver cada necessidade técnica que o cantor teria.
Em 2010 Jeanie veio ao Brasil, e pude presenciar como aquele trabalho dela era incrível, e isso mudou minha forma de ver o canto, de ensinar o canto, e ainda me inspirou a criar esse site e a escrever sobre voz.

Jeanie LoVetri voltará ao Brasil em janeiro de 2017, e nem preciso dizer o quanto estou empolgado. Ela ministra um curso de seu método, o Somatic Voicework TM, e pela primeira vez nós, da América Latina, teremos a oportunidade de nos certificar no Level 1 sem ter que irmos pra lá gastando alguns milhares de dólares. Em 2017 esse curso vai acontecer na Austrália também, pra quem se interessar...

Fica aqui a recomendação desse curso incrível, que ainda será acompanhado de um workshop e masterclass. 

Estou mais feliz ainda por participar da vinda dessa monstra pra cá, já que é uma iniciativa do Vocal-SP (grupo de estudos de canto e voz que participo).


Então não perca essa oportunidade, está muito mais barato que nos EUA, e isso sem contar passagem, hospedagem e tudo mais, e o principal, pode mudar as coisas pra você, como mudou pra mim, mas corra, as vagas são limitadas, e vem gente de muitos outros estados e países próximos para esse evento histórico.

Até lá!!



quinta-feira, 21 de abril de 2016

A voz de Freddie Mercury - Ciência x Sensacionalismo

Em fevereiro de 2016, 4 cientistas (dentre eles, o Dr. Lindestad, que tive o prazer de conhecer em 2012 e o Daniel Zangger-Borsch que já citei em texto sobre distorções vocais) publicaram um artigo fazendo uma análise sobre a voz do Freddie Mercury. Infelizmente, uma interpretação desse estudo muito ruim caiu na internet e está causando tumulto, e agora tem a tradução dela pro português piorando ainda mais as coisas. É hora de esclarecer as coisas.
Obviamente, o estudo não foi feito com videolaringoscopias ou qualquer tipo de exame no próprio Freddie Mercury, pois ele morreu em 1991. Arquivos de áudio, gravações a capella e de entrevistas foram utilizados para obtenção de análise acústica e um cantor (o Daniel) imitando o próprio foi filmado.

De cara, temos algumas variáveis a considerar: gravações comerciais são feitas com microfones, que modificam de alguma forma o espectro de harmônicos na voz, e mais, podem ser modificadas por equalização e diversos efeitos como compressor, dobra, delay, etc.. Além disso, um cantor imitando o Freddie Mercury pode soar parecido sem fazer exatamente as mesmas manobras fisiológicas, infelizmente não temos o áudio da gravação para comparar com o original.

Vamos aos resultados obtidos na pesquisa:

Analisando entrevistas, tentaram determinar a frequência média da voz falada de Freddie. Em cada entrevista, uma média diferente foi observada, mas a média da média, deu 117.3Hz, que, segundo o estudo, é tipicamente encontrada em cantores barítonos, mas essa terminologia das classificações vocais é bastante questionada atualmente, principalmente se tratando de canto popular. Na versão veiculada pela mídia, Freddie é descrito como um super-humano por ter voz de barítono e cantar notas de tenor, uma interpretação bastante peculiar do artigo.
Nas músicas que analisaram, encontraram um alcance de F#1 a G4 (ou F#2 a G5 dependendo da notação), com grande domínio de registro (controle de TA e CT) e de Modos de Fonação (entre soproso e tenso), porém, não há dado fisiológico para afirmar isso.

O vibrato dele tem uma média de 7.2Hz, ou seja, 7.2 oscilações por segundo, que é mais rápido que um vibrato desejado no canto clássico. Na versão midiática, descrevem isso como “a corda vocal vibra mais rápido que o normal”. Se a prega vocal vibrasse mais rápido que o normal ele estaria cantando com a afinação mais aguda do que deveria, ou seja, desafinado, o que não tem qualquer relação com produção de vibrato. Esse vibrato mais rápido, descrito no estudo, é tido como próximo ao tremor de voz. Na “interpretação”, podemos ler o absurdo dizendo que é uma marca que nem o Pavarotti conseguiu. Entenda, no canto lírico, um vibrato com essa variação é totalmente rejeitado e considerado mal feito, pois esteticamente não é aceito (No canto clássico ocidental o ideal está entre 5.4Hz e 6.9Hz, dependendo da idade e envolvimento emocional do o trecho cantado). No rock não há essa restrição estética, e encontramos cantores com vibratos mais rápidos e mais lentos, independente da qualidade do som produzido.

Uma variação dessa interpretação do estudo “revela” que Mr. Mercury é capaz de realizar uma técnica rara chamada de sub harmônicos, similar ao dos milenares cantores da Mongólia. O que isso quer dizer na realidade? Sub harmônico é o que chamamos de distorção vocal, ou mais popularmente drives, e por mais que eu goste do Fredão, e ele é dos meus favoritos, não dá pra dizer que é raro, certo? Quem escreveu a matéria não fazia a menor ideia do que estava escrevendo.
Esse efeito foi visto na análise acústica tanto dos áudios originais quanto do “cover” gravado pelo Daniel ZB, e nas filmagens da laringe do Borsch perceberam a ação das pregas vestibulares causando a distorção, que é o mecanismo fisiológico utilizado pelos praticantes do canto gutural mongol, como visto em artigos anteriores, como do próprio Dr. Lindestad.

O mais interessante, é que todos esses pontos que mencionei (e outros mais) a serem considerados estão no artigo original, mas o sensacionalismo feito em sites de “notícias” é maior que a vontade de passar a informação correta. Frases como "ciência comprova quem Freddie Mercury é omaior cantor da história" chama mais a atenção que "Artigo faz análise da voz de Freddie Mercury e não cria listas bizarras pois esse não é o trabalho de alguém sério"
"Pra quem divulgou o artigo sobre mim"
Eu já disse, adoro Queen e acho o Freddie Mercury um gênio, provavelmente um dos 10 vocais mais importantes da história do rock, mas tratar ciência vocal como “prova de miraculismo” é revoltante, pois quem não for olhar o original vai sair repetindo essas viagens e o mito sobre o canto vai perdurar. Um estudo sério foi feito por cientistas sérios e uma penca de “jornalistas” acabam com tudo por pura preguiça de conferir as coisas, ou falta de conhecimento sobre o assunto, ou só a boa e velha ganância mesmo.

Como sempre digo, cheque as fontes, investigue e não compartilhe informação que você não tem certeza que é real. 

Quem quiser ler o original (melhor do que sair compartilhando meu texto sem saber se estou falando a verdade também ;): http://www.tandfonline.com/doi/full/10.3109/14015439.2016.1156737
Dr. Baken, eu e Dr. Lindestad

domingo, 17 de abril de 2016

Workshop de distorções vocais

Hora de fazer um relato de como foi o Workshop do dia mundial da voz, sobre distorções vocais.

O evento foi organizado pelo Grupo de Estudos Vocal SP, e estava com o espaço lotado. Professores de canto em universidades, professores de canto particulares, cantores de MPB, blues, teatro musical, Heavy Metal, cantores líricos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), uma médica, cantores da noite de rock e cantores amadores formavam o público mais heterogêneo que um curso de distorções vocais já recebeu no planeta. Todos interessados em expandir horizontes e conhecer os diferentes tipos de distorções e como realizá-las.
O curso começou com a Dr. Joana Mariz fazendo uma brilhante introdução sobre o uso das distorções na fala, na expressividade humana, na música brasileira em cantoras como Elza Soares e Elis Regina, e até mesmo no canto erudito.

Joana estava grávida, com seu bebê que poderia nascer a qualquer momento, e demonstrou que não há empecilhos para cantar de forma distorcida, mas como ela mesma questionou. Distorcida em relação a que? Todas as vozes são normais, ainda precisamos de termos melhores para explicar o que chamamos de drives, guturais e vozes sujas e rasgadas.
Depois foi a vez da Marcella Martinez explicar as diferenças entre as vozes realizadas com ciclos periódicos de vibração nas pregas vocais e as com ciclos aperiódicos e/ou alteradas pelo uso do trato vocal.
Uma extensa pesquisa com uso das vozes distorcidas ao longo da história no mundo foi apresentada por mim, Mauro Andrea, começando com cantos tribais na África, passando por cantos tribais no Brasil, música tradicional da Mongólia, Tibet, Sardenha, Flamenca, Árabe e até do Alasca, passando pelo Negro Spiritual dos escravos nos EUA em canções como Amazing Grace e Happy Day, entrando no Gospel, Jazz, Blues e Soul, com gênios como Lavern Baker, Aretha Franklin, Frank Sinatra até chegar no início do rock e pré rock de Elvis, Little Richard e Ray Charles e depois com bandas  de rock como Beatles, Led Zeppelin, Queen, Aerosmith, etc.
Depois de demonstrar que as distorções não surgiram no rock, não dava pra não passear pelo gênero que mais explorou as diversas variações de distorções, o Heavy Metal. Desde Motorhead e Judas Priest passando por Dio, Iron Maiden, Metallica, Guns n Roses, Skid Row, Nirvana, e bandas mais extremas como: Slayer, Cannibal Corpse, Accüsed, Mayhem, Carcass, Cradle of Filth, etc. Até chegar ao cenário atual, com Slipknot, Avenged Sevenfold, Asking Alexandria, etc.
Atalmente as distorções estão em todo canto, na Broadway, nos animes, no sertanejo, na MPB e até no funk
Antes de entrarmos na parte prática do curso, tivemos uma visão incrível da música experimental que utiliza vozes distorcidas de artistas como: Bjork, Arrigo Barnabé, e Tanya Tagaq, além da "ex-beatle" Yoko Ono.
Conhecemos a opinião de alguns cantores e professores como: Jorn Lande, Bruce Dickinson, Daniel Zangger-Borsch e Mark Baxter sobre o uso das distorções e, depois de uma paua pro merecido almoço, entramos nos treinos e exercícios.

No grupo, tivemos a ideia de explorar e demonstrar ao público os principais métodos de enino de distorção vocal, começando pelo Complete Vocal Technique da dinamarquesa Cathrine Sadolin, que tem um material extremamente organizado e uma ampla pesquisa divulgada sobre diversos ajustes que ela batiza de: Distortion, Rattle, Growl, Grunt, Creak e Creaking e suas variações. Cathrine fez estudos incríveis com cantores tendo o auxílio do laringologista Julian MacCglashan demonstrando imagens e analises acústicas dos ajustes propostos.
Foi a hora de todo mundo experimentar sons diferentes, e já começamos a ver cantores líricos experimentando Growls e cantores de MPB treinando diferentes tipos de sons, a empolgação era enorme e eu tinha que conter o tempo todo aquela ótima energia que vinha.
O segundo método abordado foi o de Melissa Cross, o Zen of Screaming. Marcella fez todo mundo explorar os "Extrems" e pular para facilitar o "Death". Nessa hora chamamos um cantor da platéia que canta, entre outros, Lamb of God, que por coincidência tem o vocalista como aluno da Melissa Cross, e com poucas dicas nossa e conseguiu uma emissão muito mais confortável e poderosa.
O terceiro método praticado foi o do brasileiro Ariel Coelho, que faz um estudo minucioso nas estruturas musculares que produzem as vozes distorcidas e as divide entre "drives" glóticos, supraglóticos e mistos. O controle de pressão supraglótica, trabalhado por Ariel a exaustão fez grande sucesso e suas inúmeras divisões de tipos de distorções foram exploradas por todos com grande curiosidade e entusiasmo.

O conhecimento de 3 formas, com suas diferenças e semelhanças, de trabalhar mostrou a todos que não há mistério no treino de vozes distorcidas, apenas precisamos de paciência, cuidado com a saúde vocal, ousadia e, principalmente, seguir metodologias definidas para atingir resultados seguros.
Na última parte do curso, Nani voltou para explorar o uso da tecnologia no aprimoramento do canto e pudemos ver como efeitos simples de delay, double, reverb e oitavador, efeitos esses que são utilizados constantemente por profissionais do mais alto nível como Bruce Dickinson, Rob Halford, Russen Allen, etc., auxiliam o cantor a manter a saúde vocal ao longo de turnês extensas ou mesmo em shows simples.
Para finalizar, Marcella e eu mostramos exames de videolaringoscopia que realizamos com o Dr. Luciano Neves, e todos puderam ver pausadamente o que acontece com as estruturas da laringe em diversos ajustes de distorção e como alguns diferentes nomes em diferentes métodos são causados por ajustes iguais e ajustes iguais recebem nomes diferentes em métodos diferentes, causando confusão na hora que o cantor resolve estudar e pesquisar o tema.
O time de ministrantes do workshop: Mauro, Joana, Marcella e Nani
Termino esse texto com um agradecimento enorme às Monicas e toda equipe do Vocal SP pelo empenho e dedicação, ao Renato, marido da Marcella, pela ajuda com o equipamento, aos meus colegas ministrantes pelo brilhante e intenso trabalho, ao Dr. Luciano Neves pela dor no braço em mais de uma hora de laringoscopia, ao Ariel Coelho, pelas aulas, cursos, autorização e ajuda com seu método, e, principalmente, aos participantes do curso, que demonstraram um interesse fantástico, e melhor, que saíram de lá sabendo como treinar pra atingir os objetivos, o que nos deixou extremamente felizes, ainda mais com o retorno que tivemos e os pedidos da reedição do workshop, até mais extenso, já que as 8 horas passaram voando.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Novo curso de distorções vocais

No final de 2015 fui convidado para fazer parte do grupo de estudos de canto e voz que realiza vários eventos, cursos e workshops, o VocalSP, o que me deixou muito contente, por ser um grupo recheado de profissionais incríveis, pessoas hiper competentes, com currículos extensos e uma enorme paixão pelas descobertas sobre o canto.

E para marcar essa nova etapa, o grupo resolveu montar um workshop de um dia inteiro sobre distorções vocais,e  eu serei um dos ministrantes
Esse super completo sobre as distorções vocais (os famosos drives e guturais), promovido pelo VocalSP, vai abordar:
Distorções na fala e expressividade
Uso das distorções no teatro e dramarturgia em geral.
Distorções na música em diversos estilos ao longo da história (rock, blues, MPB, jazz, sertanejo, gospel, música folclórica e etc.).
Explicações dos ajustes realizados em diversos tipos de distorção, de acordo com as mais avançadas pesquisas no Brasil, Suécia, Dinamarca, Itália e EUA.
Pré-requisitos para a realização plena e saudável desses efeitos.
Exemplos sonoros.
Práticas de treino e exercícios.
Aplicação com uso de tecnologia.
Cuidados para a manutenção e desenvolvimento dos ajustes necessários.



Inscrições pelo inbox do grupo VocalSP, ou pelo e-mail vocalvocalsp@gmail.com

Mais informações no cartaz abaixo:

sábado, 28 de novembro de 2015

Modos de fonação

Em 1994, o renomado cientista vocal Johan Sundberg publicou um artigo sobre os diferentes padrões de vibração das pregas vocais e os Modos de Fonação e os descreveu de forma bastante completa, indo além de pesquisas anteriores, como a de Martin Rothenberg em 1973, que focou em aspectos acústicos dos Modos, e vou fazer uma adaptação pedagógica sobre o tema. Afinal, o papel desses brilhantes cientistas é descrever o que observam, e cabe a nós, cantores e professores, transformar isso em instrução prática e de fácil acesso a todos, evoluindo a tradição e trazendo informações preciosas de áreas correlatas, como a fonoaudiologia, miologia, neurologia, etc.. 
Prof. Dr. Johan Sundberg e eu durante seu curso
no CEV, em São Paulo

Quando falamos em Modo de Fonação, não nos referimos a qual nota está sendo cantada ou se é forte ou fraco o som, estamos falando de um aspecto da fonte sonora que determina a quantidade de ar que deixaremos passar na voz, ou o quão firme será a adução das pregas vocais (relembrando conceitos básicos: adução = fecha, abdução = abre).

Existem muitos métodos de pedagogia vocal atuais que se baseiam nos Modos de Fonação, mesmo que não conheçam essa pesquisa ou não utilizem esses termos.
Por que isso acontece? Porque os melhores métodos de ensino de canto vêm cada vez mais se aprofundando em conceitos fisiológicos e acústico da voz, o que é ótimo, e isso os traz a essas mesmas conclusões, dos mais diversos pontos de vista.
Entender as possibilidades dos diferentes Modos vai mudar a forma como você interpreta o treino de técnica vocal e facilitar seu estudo de forma incrível.

Nos textos sobre os MÚSCULOS DA LARINGE E A VOZ (importante para melhor compreensão deste artigo) falei sobre os níveis de adução glótica serem independentes da nota cantada, e esse é o ponto chave.

Sundberg descreveu um contínuo para esse nível de adução que vai desde a glote aberta até completamente lacrada e os relacionando com os Modos de Fonação, são eles: Sussurrada, Soprosa, Fluida, Neutra e Tensa, do mais “aberto” para o mais “fechado”.
Pensando neles como um contínuo que tem infinitas possibilidades, eu faço uma contribuição, adicionando um patamar intermediário entre o Neutro e o Tenso, que você dificilmente vai encontrar em música comercial, mas que pode ouvir em estilos de canto como o Sygyt, vertente dos cantos guturais de Tuva e da Mongólia.

Vamintens Atenção!!! Vou citar alguns estilos musicais nos Modos, mas isso não significa que só se canta de uma forma em determinado estilo, isso não existe. 
Entretanto, é comum encontrar cantores que utilizem uma variação muito pequena nos Modos ao longo de toda sua carreira. Eu, particularmente, prefiro os com mais opções de variação.
  • Modo de Fonação Sussurrado:
Aqui não há resistência alguma, tampouco vibração de prega vocal, o ar passa livre, mas pode ser moldado no trato vocal, possibilitando o som da fala sem “notas”. Não confundir com aquele cochicho apertado, que é danoso, aqui a ordem é abrir caminho. Só aparece no canto contemporâneo como efeito sonoro.
  • Modo de Fonação Soproso:
Agora você aumentou um pouco o fechamento, as pregas vocais aduziram um pouco mais e a mucosa já começa a vibrar e produzir notas, mas o contato ainda é parcial. Esse fechamento incompleto faz com que junto à voz apareça o som do ar passando. Modo muito utilizado em baladas em geral e na música gospel brasileira e bossa nova, também aparece sempre no jazz. 
  • Modo de Fonação Fluido:
Aumentando a adução um pouco o ar vai parar de “vazar” e a voz ficará limpa, assim é a flow phonation. É um som ainda gentil porém sem soprosidade. Segundo estudos posteriores do próprio Sundberg notou-se que é um Modo comum ao canto operístico, já que favorece sons com mais intensidade, obrigatório para a Ópera de grandes salas. Também é muito utilizado na MPB.
Esse modo é muito interessante para começar a trabalhar a voz e a independência dos sistemas de controle de frequência e de adução, facilitando o funcionamento mais eficiente da voz e criando estabilidade antes de partir para ajustes mais firmes.
  • Modo de Fonação Neutro:
Mais um pouco de adução e o som ficará metalizado e mais firme. Aqui você já precisa começar a tomar mais cuidado com a pressão de ar. É bem comum na música contemporânea como, pop, rock, etc., por soar quase como uma voz falada.

Podemos dizer que a borda inferior do Vocalis (TA interno, tireovocal inferior) está contraída aqui? É uma opção que deve ser investigada e requer maiores estudos.
  • Modo de Fonação Firme (Sundberg fala de um Modo Neutro mais perto do Tenso que chamei de Firme pra facilitar):
Se você quer cantar ópera, esqueça este Modo, aqui o fechamento glótico é bastante firme (TA externo, CAL, AAs, todos ajudando a manter a estrutura forte) e pode ser muito perigoso sem um sistema de amplificação da voz e um condicionamento sólido. A voz soa pesada e agressiva (sem distorções), como em alguns cantores de blues e metal. É comum ver estudantes querendo começar a cantar aqui, mas esse é um erro fatal que não vai fazer nada além de limitar a voz e criar frustrações.
Mesmo que seu objetivo final de sonoridade seja mais firme, comece com calma e vá aumentando a carga aos poucos. Usain Bolt não começou sua trajetória correndo 100m em menos de 10s.
As pesquisas indicam que o aumento da adução está relacionado ao aumento da pressão subglótica quando se tenta manter ou aumentar a intensidade do som, e é por isso que se torna mais cansativo e desgastante cantar em grandes volumes com fonações mais aduzidas. A estratégia de sobrevivência aqui é não precisar cantar forte, reduzir o volume e manter a pressão de ar domada.
  • Modo de Fonação Tenso:
Em inglês, o termo utilizado foi pressed, de apertado, então você já sabe do que estou falando. É o extremo fonatório antes de lacrar completamente a laringe e não sair nem ar, o som de quando estamos fazendo força.

Existem outros modos da prega vocal produzir sons?
Sim, poderíamos falar em um "Modo Crepitante" (tradução de creaky), onde as pregas vocais vibram em ritmo aperiódico (irregular), deixando o som "sujo" (um dos queridos drives), e poderiamos fazer isso em diferentes níveis , mais e menos aduzidos, produzindo distorções mais suaves ou mais agressivas.
Pra tudo você tem etapas de desenvolvimento que devem ser respeitadas

Pra chegar aqui você precisa treinar com calma, fortalecer as estruturas de forma gradual e contínua para que não se canse e se machuque, principalmente com os níveis de resistência muscular mais intensoMas não precisa ter medo, apenas preparo e condicionamento vocal. Achar que não consegue é o primeiro e último passo para não conseguir, nosso cérebro acredita no que pensamos e ele é o chefe do corpo.

Considere que você é um atleta, e pra cantar com sons mais “pesados” vai precisar de treino mais forte que pra cantar com sons mais “leves”.

Lembre-se que é um contínuo, portanto, não existem apenas 5 ou 6 posições de adução ou qualquer coisa do tipo, esses nomes e estágios que vemos por aí são apenas formas didáticas de criar referências. Um cantor preparado vai utilizar incontáveis níveis de resistência muscular de acordo com as nuances que quiser empregar em suas canções.
A vantagem de se atentar a essa característica da voz, é que mantendo os Modos de Fonação estáveis (níveis de adução glótica) transitar entre graves e agudos se torna muito fácil, é só manter o fluxo de ar constante. Você estabiliza o sistema de adução e abdução e ganha liberdade no alongamento e encurtamento das pregas vocais.

Some  tal controle aos ajustes de trato vocal (ressonância ou formantes, como preferir) e pronto, cante qualquer coisa que você quiser, fazendo o que hoje é conhecido como crossover, a prática de cantar diferentes estilos, com diferentes técnicas.

Pra saber como colocar isso tudo na prática nós precisamos entender um pouco de como treinar, conhecendo a Fisiologia do Exercício, e seguiremos para esse tema no próximo texto.

MAIS SOBRE MODOS AQUI