sexta-feira, 31 de agosto de 2012

É verdade que quem faz drive danifica a voz?


Vamos falar primeiro sobre o que é drive.

Drive é aquela “rasgada” na voz, aquele som distorcido que pode lembrar uma voz rouca ou quase um latido de cachorro bravo, usado normalmente para dar maior agressividade na voz, ou mais ênfase em determinado som. 
Para quem toca guitarra, é o mesmo nome do efeito que distorce o som, deixando aquele “chiado” característico. Aliás nome para o drive é o que não falta (o termo "drive" só é utilizado no Brasil, fora você ouve raspy voice, creeky voice, distorted voice, sing with gravel, grip, etc.), mas não vou entrar nesse mérito, o importante saber é que existem vários tipos de distorção, que vão variar de acordo com as estruturas que vibrarem fazendo esse "barulho".

Confira Jorn Lande, um ótimo exemplo de drives.

Mas engana-se quem pensa que é uma técnica exclusiva do rock, heavy metal e da música pesada, o drive, chamado de desvio vocal pelos estudiosos da voz, também é muito comum no blues, jazz, etc. você encontra em gospel, pop e até mesmo na música sertaneja (vide Bruno e Marrone) ou folclórica de diversas regiões do planeta, a música erudita também utiliza o drive como recurso estético, como na ópera "Tosca" de Puccini, quando morre Scarpia.

Atualmente esse tema é estudado no mundo todo, por pesquisadores, cientistas vocais e professores de canto de vários países, como: Enrico Di Lorenzo, Per Ake Lindestad, Daniel Zangger Borch, Cathrine Sadolin, Julian McGlashan, Melissa Cross, Jamie Vendera, Mark Baxter, Brian "Hacksaw" Williams e Guilherme Pecoraro e Ariel Coelho, brasileiros, além deste que escreve, e muitos outros ao redor do mundo, já com diversos artigos científicos e alguns métodos publicados. Muito tem se descoberto sobre o assunto, mas ainda há muito o que se entender, e, respondendo a questão inicial, já se sabe que esses efeitos de distorção vocal podem ser feitos sem prejuízo para a voz se forem feitos da maneira correta, respeitando o estágio técnico e resistência de cada um.

Fisiologicamente, essa distorção é causada pela adição de mecanismos que vão trabalhar acima das pregas vocais, como as pregas vestibulares, pregas ariepiglóticas, a epiglote, cartilagens cuneiformes, palato, ou mesmo por uma vibração aperiódica (em ritmo irregular proposital) das pregas vocais. Quanto mais coisas vibrarem, mais distorcido fica o som, mais agressivo. Alguns são feito sem a utilização das pregas vocais, o que impede o som de ter melodia definida, enquanto outros mantém sua vibração, e as notas são cantadas normalmente,apenas adicionando os "ruídos", como um pedal de distorção de guitarra.

Hoje em dia podemos encontrar infinitos nomes para esses diferentes tipos de drives, o que pode confundir aquele que tenta aprender, pois vai achar um som com um nome em um método e com um diferente em outro. Infelizmente essas coisas não seguem um padrão, e dependem muito mais do marketing, da vontade de parecer inovador e de vender o peixe de cada um do que de qualquer outra coisa.

A pressão de ar pode ser maior dependendo do tipo de distorção criadoo, mas não pode ser exagerada. O que causa dano é tentar realizar esse som arranhando ou comprimindo a estrutura da laringe de forma abusiva, o famoso “na raça”,com uma grande pressão de ar, ou com a estrutura sem condicionamento e resistência suficientes, mais do que nunca, nos drives, a conciência dos ajustes musculares é importantíssima, bem como cuidados gerais de higiene vocal e noção de quanto seu corpo pode ser exigido em cada momento.
na figura: as pregas vocais (vocal fold) com o músculo vocal, ou TA (vocalis muscle), as pregas vetibulares logo acima (vestibular fold) e a epiglote lá no alto (epiglottis)

O ideal, segundo alguns pesquisadores, é alternar momentos “limpos” com momentos “rasgados” poupando o mecanismo vocal e evitando uma fadiga exagerada, pois sabemos que cantar com os músculos cansados não é inteligente, assim como um jogador de futebol, que pede para ser substituído quando sente que se houver esforço maior pode ter uma contusão desnecessária.

O importante é treinar e se preparar bem. Não tente pular etapas, não tenha pressa para desenvolver seus drives, isso sim é nocivo, pois esses efeitos precisam de um preparo físico mais elaborado, precisam de força e resistência que não surgem de uma hora para outra, e principalmente, precisam de uma capacidade de auto percepção e controle, que somente com uma técnica vocal apurada você consegue ter de fato. 
Lembre-se, você não encontra sua voz, você a desenvolve, e o drive, como em todo o resto do estudo de canto, passa pelo processo de entender como faz, se adaptar, fazer com facilidade e só então fortalecer.

Outra pergunta comum a esse respeito é: Se é preciso uma anatomia privilegiada, uma voz específica para realizar esse tipo de som? Claro que alguns cantores possuem vozes roucas ou características naturais que facilitam o trabalho, mas não, você não precisa ter "nascido para fazer drive", você precisa de um treinamento correto, consciência e paciência.

Angela Gossow, mostrando que até o drive mais "brutal" pode ser feito por qualquer um.

É uma técnica perigosa? Para quem faz errado cantar é perigoso, falar é perigoso, atravessar a rua é perigoso. O drive não é o problema, o que é feito antes dele é que causa os danos, se você canta com muita força e pressão, o drive só vai mostrar isso mais claramente. Condicione sua voz, trabalhe ela como um todo, e aí terá drive, saúde vocal e muita diversão!!!

3 comentários:

  1. O drive do Bruno do Marrone é bom?
    Rsrs

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    1. Cara, se ele gosta, se o público dele gosta, e não traz nenhum prejuízo pra voz dele, então da pra dizer que é bom, hehe.

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