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domingo, 17 de janeiro de 2021

A diferença entre 13 tipos de exercícios de trato vocal semi ocluído!

Olá, aqui é o Ian Gonçalves e eu vou falar sobre um tema interessantíssimo! A diferença entre 13 tipos de exercícios de trato vocal semi ocluído. Temos muitas possibilidades. Muitos tipos. O trilo de língua, trilo de lábio, o canudo de suco, canudo de pirulito, enfim, todos eles tem propriedades e reações únicas e saber o que cada um desses tem de diferente ajudará bastante na hora de escolher qual usar e quando usar. 


Em 2014 foi publicado um artigo escrito por Lynn Marxfield, Ingo Titze, Eric Hunter e Mara Kapsner-Smith chamado “Intraoral pressures produced by thirteen semi-occluded vocal tract gestures”.


Em resumo, a ideia principal era medir a pressão dentro da boca entre os 13 tipos escolhidos de ETVSO (sigla para “Exercício de trato vocal semi ocluído).



Antes de ver os resultados do estudo é interessante entender um pouco mais sobre “para quê eles servem”. Os ETVSO são principalmente usados pois os efeitos principais são reduzir atrito entre as pregas vocais, estimular uma produção vocal mais saudável, estimular uma maior eficiência entre fonte-filtro e maior poder acústico com menor esforço na voz.

Além disso foi visto por Guzman numa outra pesquisa, chamada “Laryngeal and pharyngeal activity during semioccluded vocal tract postures in subjects diagnosed with hyperfunctional dysphonia. 2013” que ETVSO levam para a produção vocal uma configuração de laringe mais estável, uma abertura mais estreita do tubo epilaríngeo (gerando maior poder acústico na região em volta do 4º formante) e um espaço faríngeo mais largo (o tal do espaço que tanto pedem pra nós abrirmos pra cantar).



Falando ainda sobre esse "espaço": Pedagogicamente falando, é muito útil fazer a pessoa executar alguma escala com a bochecha cheia de ar, deixando vazar só um pouquinho de ar pelos lábios. Isso vai levar o aluno a inflar seu trato vocal enquanto canta uma melodia e vai fazê-lo sentir e perceber muito bem esse espaço.


É bastante coisa, não é? Seria muito ruim (pra um cantor e para os alunos) deixar esse tipo de técnica pra lá.


Enfim, o artigo!

O estudo da postagem de hoje é em relação aos diferentes efeitos desses exercícios na nossa voz.

O grupo de pesquisa pegou 30 exercícios diferentes para medir seus efeitos em 20 pessoas (10 homens e 10 mulheres) de diversas idades (de 20 a 72 anos). Todos eles com voz saudável e tendo feito no mínimo 1 ano de aula de canto. 


Os dados foram medidos com microfone condensador, EGG e por um aparelho medidor de pressão intraoral, da Glottal Entrerprises, chamado PT-25.


Os ETVSO analisados foram os da lista abaixo, e eles já estão organizados em uma ordem de menor para maior pressão intraoral. Essa pressão é a que a pessoa irá sentir ao usar cada um destes. É a pressão que ocorre dentro da boca, que faz parte do ar voltar e inflar o trato vocal.



  • /m/ (bocca chiusa)
  • /n/ (bocca chiusa)
  • /u/ (com biquinho)
  • Vocalize com Canudo Largo
  • /z/ (fricativo)
  • /j/ (fricativo)
  • Trilo de língua (algumas pessoas tiveram dificuldade)
  • /b/ (com bochecha cheia vazando um pouco de ar)
  • /v/ fricativo
  • Trilo de lábios (algumas pessoas tiveram dificuldade)
  • Canudo pequeno, com 3.5mm de diâmetro e 14.1 cm de comprimento
  • Raspberry (vibração de língua com ela pra fora, no lábio inferior)
  • Canudo comum (5mm) na água a 7cm de profundidade


Foi visto também que os valores foram diferentes entre cantores e não-cantores. Isso provavelmente se deve ao fato de que cantores treinados já possuem um controle maior da execução de cada exercício e fazem as coisas de forma mais consciente.

Segundo esse artigo, por exemplo, soprar num canudinho fino gera uma pressão maior do que fazer uma vibração de lábios.

Existe um exercício superior ao outro então? Não. Cada exercício tem um efeito específico e deve ser usado com consciência para atingir os objetivos desejados. A vibração de lábios, por exemplo, além de auxiliar na manutenção do fluxo de ar, auxilia a relaxar os músculos da face. O Raspberry ajuda a relaxar a base da língua, etc. Coisas específicas que devem ser pensadas de forma estratégica para resolver os problemas dos alunos.

Existe também uma relação dessas pressões com os modos de fonação. Por isso é muito importante estudar e se capacitar nesse assunto, pois ele costuma ser muito eficiente e resolver muita coisa. (O curso PCV, deste site, coordenado pelo Mauro Fiuza, tem um módulo inteiro de um mês só pra tratar desse assunto).

Esse artigo nos deixa evidências de que os ETVSOs variam significantemente entre eles, levantando a questão: “Qual é o melhor?”, “qual é o mais adequado para cada coisa?”, etc.

Eles são excelentes para diversos tipos de treino. Tanto para aquecimento, quanto para treino de técnica, quanto para treino de condicionamento. Se for bem usado, trará resultado reais e incríveis no trabalho vocal. Não é “só marketing” quando temos tantas evidências a favor. Nesse artigo e em outros foi mostrado como eles realmente são eficientes.


O mais importante, para o professor, é buscar algum curso que o capacite em usar esse tipo de técnica. O PCV, do Mauro Fiuza, faz isso com excelência. Entre em contato para saber sobre abertura de uma nova turma.


Nos vemos num próximo texto!


Ian Gonçalves,

@IanGGoncalves / ian.voz@icloud.com

sábado, 2 de janeiro de 2021

Exercícios com canudo e evidências científicas

Oi pessoal, aqui é o Ian Gonçalves e trago mais uma postagem pro site.

Como estamos em tempos onde esse tipo de exercício tem se tornado cada vez mais popular, torna-se necessária uma maior divulgação científica sobre esse assunto. Estou aqui para dar argumentos favoráveis a essa ideia e esse artigo vai ajudar nisso. (Caso algum dia surja algum tipo de disputa desnecessária sobre o tema, deixe para a ciência resolver, como já disse o Mauro Fiuza uma vez aqui no site, no artigo sobre fisiologia).

Em tempos recentes foi publicada uma tese de doutorado escrito por Greta Wistbacka, chamada Oral pressure and flow feedback components in semi-occluded vocal tract exercises, 

(Esse tema é bastante desenvolvido no curso do Mauro Fiuza sobre Pedagogia e Ciência Vocal.)

Eu vim trazer alguns pontos interessantes sobre um capítulo desta tese, que falou justamente sobre exercícios com canudo no ar. “Canudo no ar” se refere a exercícios com canudo sem que eles estejam. submersos em um recipiente com água, por exemplo.

Nesses casos, o principal fator que determina os efeitos desses exercícios é o diâmetro dos canudos. Ou seja, se ele é mais fininho ou não.

Estudos foram feitos analisando diversas categorias de efeitos nas pessoas que usam esses exercícios e agora vou listar eles aqui, de acordo com a tese publicada por Wistbacka. Lembrando que, segundo mencionado por Ayssa Santos (2020) em artigo, é importante fazer exercícios de trato vocal semi-ocluído por pelo menos 1 minuto para que ocorram efeitos na voz.

“Pressão retroflexa”:



Nesses exercícios, a resistência no fluxo de ar tem relação com a pressão que volta para dentro do trato vocal, causada pela semi oclusão ao ter que soprar por um canudo. Como o canudo não muda de tamanho e largura durante uma escala, ele oferece uma resistência fixa o tempo inteiro e isso é muito útil para treino de técnicas vocais, pois não dá pra “roubar nos agudos”. hehe

Se o canudo for mais fino, a pressão de volta é maior. Isso é abordado com muitos detalhes num artigo de Marxfield que irei comentar aqui mais pra frente no site.

Como foi investigado por Conroy et al (2014), fonação com canudo leva a uma redução no índice de Phonation Threshold Pressure (PTP). Esse nome se refere ao mínimo esforço necessário para se produzir um mesmo som. Abaixar esse índice é um objetivo valioso, pois conseguir fazer um mesmo som com menos esforço e atrito vai levar a uma maior saúde vocal, menos fadiga e maior controle e flexibilidade da voz. Quando a dificuldade e o cansaço diminuem, conseguimos fazer mais coisas com a voz, não é mesmo?

Trato Vocal:

Após investigações feitas por Guzman usando EGG, tomografia e ressonância magnética, alguns efeitos foram observados em cantores após exercícios com canudos no ar.

  • Maior espaço na cavidade oral;
  • Maior espaço faríngeo;
  • Maior espaço no tubo epilaríngeo
  • Redução no espaço velar
  • Palato se mantendo elevado 
  • Maior volume das cavidades orofaríngeas
  • Acréscimo no comprimento do trato vocal
  • Redução da posição vertical da laringe (abaixamento)
  • Fechamento da passagem nasofaríngea (tirando a nasalidade da voz)
Os benefícios são muitos!
Aqui deixo uma observação: Todos esses benefícios acima foram relacionados ao trato vocal em si e não à prega vocal. Isso em si já se contrapõe a certas ideias de que esses exercícios de trato vocal semi-ocluído (ETVSO) só servem para treinar o condicionamento das pregas vocais, dos músculos da laringe e mais nada. Como essa ideia é disseminada, essa observação é importante de ser feita.

Efeitos Acústicos:


Um termo mais acadêmico para essa “pressão retroflexa” é a “impedância”. Efeitos acústicos foram observados após exercícios com ETVSO. Um deles é um boost acústico na região dos formantes 3, 4 e 5, chamado por muitos de “região do twang”. Esse efeito, com alguns ajustes (e muito treino), pode levar ao que é chamado de “formante do cantor”. Um bom uso desse resultado acústico dá um poder muito grande na voz sem que a pessoa precise fazer mais força pra cantar. Segundo J. Sundberg, um uso muito eficiente dos formantes pode aumentar o volume de uma voz em até 100x sem que a pessoa precise aumentar o esforço.

Segundo Story et al (2000), adicionar um tubo artificial ao nosso trato vocal irá afetar todo o comprimento do mesmo, mudando o local de sensações das ressonâncias. 

Outro efeito foi que, em canudos mais largos, foi detectado o efeito de redução no consciente de contato das pregas vocais. Ou seja, houve uma redução no atrito entre as pregas vocais para se produzir um mesmo som (ou até melhor. Afinal, um canto mais conforto pode muitas vezes resultar num som “mais bonito”).

Uma outra observação foi feita em 1992 por Laukkanen: Um aumento de 1 a 3 dBs no som após exercícios com canudo. Isso. corresponde a uma sensação acústica de aproximadamente “dobrar o volume”. Esse foi um efeito imediato na voz, sem um aumento de esforço.

Aqui vale uma outra observação pedagógica: 

Existe uma ideia pedagógico-vocal de “canto com volume reduzido”, onde o cantor canta “baixinho e saudável” e o cantor confia que o microfone vai fazer esse baixo volume ser ouvido por todos.

É excelente! Apenas há uma problemática nessa questão que deve ser sempre levada em consideração: Conforme um cantor vá se tornando mais eficiente, há a possibilidade de que seus sons emitidos fiquem mais potentes, ou seja, mais altos. Esse efeito acontece por causa de uma maior eficiência na manipulação do trato vocal, que manipula e estimula ressonâncias, podendo amplificar o som produzido sem que tenha um aumento no esforço (como foi visto acima) e também por uma maior eficiência glótica.

Nesse caso, se não tivermos cautela, corremos o perigo de estarmos “corrigindo” um ponto que não está precisando de correção, mexendo na técnica de um cantor que está cantando “alto demais” por estar sendo muito eficiente e não necessariamente “berrando”. 

Uma técnica muito eficiente pode trazer um maior poder acústico na voz do cantor. Ao tentarmos “corrigir” isso, caímos no risco de atrapalhar uma técnica saudável e bem ajustada de um bom cantor e acabar aumentando a tensão dele. Acabaríamos fazendo ele “reduzir volume” apertando e tensionando tudo, sendo que ele na verdade estava com uma técnica saudável e em dia.

Logo, sabendo disso, devemos tomar cuidado para saber diagnosticar corretamente. “O cantor está cantando meio alto... Seria tensão ou eficiência?” Saber responder essa pergunta irá te impedir de cometer alguns erros na hora de cuidar da voz de um cantor.

Enfim... Muita coisa, não é? E essas informações são apenas algumas. Existe tanta evidência científica disponível a favor dos ETVSOs que é impossível ler todas e ter uma vida normal, hehe.

Sinta-se a vontade para pesquisar e ler artigos sobre esse tema. No site do Journal of Voice tem artigos para uma vida inteira só sobre isso.

Uma observação importante:

Esse artigo trouxe evidências científicas para defender o uso de ETVSO,  mas não ensinou sobre seu uso correto. O objetivo desse artigo foi mostrar evidências de que eles são realmente importantes e muito úteis. Não é recomendável fazer uso de ETVSO sem um treinamento adequado para isso. O curso do Mauro Fiuza ensina e capacita os alunos ao uso dessa categoria de exercícios.

Eles, se usados de forma errada, não atingem os objetivos desejados e ainda podem trazer danos para o cantor.

Faça aulas com alguém habilitado a usá-los, ou habilite-se.


Fico por aqui e até a próxima!

Ian Gonçalves (@IanGGoncalves / ian.voz@icloud.com)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Gargarejo como pré aquecimento para voz!

Olá!

Aqui é o Ian Gonçalves e acabo de trazer mais um aprendizado interessantíssimo para nossa coluna #CantoComEvidência (hashtag que usarei no instagram também para divulgar esses posts).

Em 2020 foi publicado no Journal of Voice um artigo feito por Amabelle Ayssa, Patrícia Balata, Geová Oliveira de Amorim, Ana Clara Amorim, Hilton Justino e Leandro Pernanbuco, chamado Effects of Voiced Gargling on the Electrical Activity of Extrinsic Laryngeal Muscles and Vocal Self-assessment.


E que nome enorme! Traduzindo de forma mais simplificada, ficaria “Efeitos do gargarejo com voz na atividade dos músculos extrínsecos da laringe”.


Vou comentar também alguns pontos interessantes ditos no artigo. O primeiro ponto importantíssimo é que “a mobilidade das pregas vocais resultam da ativação de complexos grupos de musculaturas intrínsecas e extrínsecas, além da participação do fluxo de ar pulmonar e dos efeitos aerodinâmicos da fonação.”


É muita coisa envolvida na nossa voz. Não é apenas assunto de pregas vocais e laringe. O corpo é um conjunto que funciona muito bem se usado com boa sinergia entre todas as suas partes.


Um dos principais alvos de um Exercício de Trato Vocal Semi Ocluído é aumentar a eficiência da interação entre fonte (prega vocal) e filtro (trato vocal), além de reduzir níveis de atrito entre as pregas vocais para um mesmo som, minimizando os riscos de lesões e fadigas.


E advinha só... O gargarejo é também um exercício de trato vocal semi ocluído! Professores de canto não podem ver uma micro oportunidade de criar um novo tipo de treino que já estão lá testando.


O gargarejo pode ser feito com voz ou sem voz. E é por isso que eu coloquei “Gargarejo Musical” no título. 


Segundo o artigo, a barreira de água que o gargarejo cria mobiliza a mucosa das pregas vocais, o velo e a base da língua de forma a estimular uma expansão do trato vocal e também um “efeito massagem” nos pilares da faringe. “Efeito massagem” é um tema interessante para se falar futuramente. 


O gargarejo, em pesquisas anteriores, tem indicado efeitos como uma melhora na frequência fundamental, aumento na intensidade e também uma emissão mais clara e confortável. São efeitos bastante desejáveis para um cantor, não é?


Ele também pode ser usado para incentivar a fonação fluida, que é uma fonação mais saudável, confortável e leve (você pode ver o artigo sobre Modos de Fonação clicando aqui). É a fonação com maior “economia vocal” (se fizer direito hehe) e, apesar de nem todos cantarem com esse tipo de voz, ela é muito útil para começar um aquecimento vocal com o pé direito.


Uma coisa importantíssima citada no artigo é que a qualidade da voz é indiretamente modificada pelas ações dos músculos extrínsecos da laringe. Entenda: O seu professor não está gastando tempo de aula à toa quando para tudo pra fazer algum alongamento para soltar a tensão no seu pescoço. hehe


Aliás, alguns casos sérios de disfonia (leia-se “problemas vocais”), principalmente causados por usos inadequados da voz, podem estar associados a um sobre-uso desses músculos. Eles, causando tensão desnecessária, elevam a altura da laringe além do necessário e podem causar dores em volta da laringe (aliás, enxaquecas também).



Então, uma dica: Nos seus treinos, busque sempre cantar sem deixar os músculos e veias saltando loucamente pra fora. Se conseguir, é um sinal de canto sólido, consciente e relaxado.


E o artigo?

Então, sabendo de todas essas coisas, 20 pessoas entre 20 e 56 anos participaram de um experimento para medir os efeitos do gargarejo na musculatura extrínseca. (Metade deles possuíam problemas vocais).


O experimento consistia em fazer 1 minuto de gargarejo com uma nota grave e confortável na vogal /u/, com nota sustentada, com pausas durante o tempo (pois é impossível fazer isso por um minuto seguido hehe).


A atividade da musculatura supra-ióidea (embaixo da língua) e infra-ióidea foi medida por eletrodos (antes, durante e depois do exercício).


E os resultados?

Os resultados foram diferentes entre quem tinha problemas vocais e voz saudável. Apesar disso, todas as atividades musculares caíram após os exercícios. Obs, nos resultados observados, a atividade muscular caiu mais significantemente nos supra-ióideos. Os resultados e a % de relaxamento muscular variaram do lado esquerdo e direito da laringe, o que sugere a possibilidade de uma falha no experimento. E realmente houve uma falha. No final do artigo ela é mencionada:  Os participantes não ficaram perfeitamente alinhados para fazer os testes. Apesar disso, essa falha não é capaz de invalidar a pesquisa e as conclusões. 


Mesmo assim, a falha é exposta pelos próprios autores, pois a ciência precisa ser sempre 100% transparente e livre de egos. 


Outro efeito percebido pelos dois grupos (pessoas com problemas vocais e pessoas com voz saudável) foi uma maior qualidade vocal e um maior conforto na voz depois do exercício.


Uma das possíveis explicações é que, ao fazer o gargarejo, a posição estimule um alongamento da musculatura extrínseca. Essa musculatura dá suporte para os músculos intrínsecos encurtarem ou alongarem as pregas vocais, além de afetar a participação dos articuladores do nosso trato vocal. Logo, se a tensão desses músculos cai, é bem favorável para cantar.


Os efeitos de 1 minuto deste “gargarejo musical” levam essas musculaturas extrínsecas a um maior relaxamento e, por consequência, a um canto mais relaxado e saudável. 


O suave e consistente fluxo de ar que é estimulado pelo exercício estimula um relaxamento nas musculaturas da produção da voz pois, se estiver tenso, o gargarejo vai começar a falhar. Um outro efeito do exercício é que ele induziu a voz para um estado de maior clareza e qualidade.


Foram reportados efeitos como:


  • Voz mais “aberta”;
  • Voz mais “clara” (no sentido contrário ao da “voz fosca e opaca”)
  • Menos esforço pra falar

Todos esses efeitos são bem comuns em exercícios de trato vocal semi ocluído.


Essa musculatura extrínseca não produz a voz, mas está o tempo todo participando indiretamente. Ela é responsável pela manutenção da posição da laringe, pelo enrijecimento do pescoço, pela estabilidade na voz e por maior conforto vocal.


Nunca deixem de pensar na musculatura extrínseca. Ela é essencial para uma boa produção vocal.

“É possível que o gargarejo ajudou a reduzir o nível de tensão muscular e, por causa disso, levou a uma produção mais relaxada do mesmo som”, disse no próprio artigo. 


Ou seja, você  é levado a fazer a mesma coisa só que com menos esforço e isso leva seu canto para um patamar mais saudável.


Concluindo:

Se você soubesse de um exercício que só gastasse 1 minuto e que reduzisse bastante a tensão da musculatura extrínseca, não gostaria de usá-lo antes de aquecer?

Que tal fazermos testes em casa e depois relatarmos aqui nos comentários os efeitos sentidos  pelo exercício? Meus alunos gostam muito. Tente você também!


É um minuto que pode ajudar todo o treino a ser mais eficiente.


Muito obrigado e até a próxima!


Ian Gonçalves,

@IanGGoncalves

ian.voz@icloud.com

domingo, 20 de dezembro de 2020

Shaker para aquecimento da voz! Funciona?

 

Shaker para aquecimento e treino vocal em aula de canto.

Olá! Aqui é Ian Gonçalves e irei falar um pouco sobre esse aparelho tão usado recentemente nos exercícios de canto.

Esse ano foi publicado por Anne-Maria Laukkanen, Jaromír Horáček e Vojtěch Radolf um estudo chamado SHAKER: PRELIMINARY OBSERVATIONS OF A POTENTIAL DEVICE FOR VOICE TRAINING AND THERAPY.

Basicamente, a proposta era investigar e observar os efeitos do Shaker em aquecimentos vocais. Será que é perigoso? Será que tem alguma vantagem ao usar ele pra cantar? É algo permitido só para fono?
    

Exercícios de Trato Vocal Semi Ocluído. O que são?

O foco deste post, especificamente, não será para aprofundar na definição de “trato vocal semi-ocluído”, mas é importante colocar pelo menos alguma explicação pra você, que está lendo, ter uma noção do quão maravilhosos são esses tipos de exercícios vocais.
O nome já explica bem o que o isso envolve: “Exercícios com a boca quase fechada”. Isso resume de forma bem superficial, mas por enquanto basta.

Boca quase fechada? Como assim? Bom... Você já deve ter feito algum aquecimento com vibração de língua, canudo na água, canudo no ar, ou cantado com um loooongo /Vvvvvvvvvv/ alguma vez na vida.


Esses exercícios são feitos de forma a colocar algum “obstáculo” na saída da voz.  Ao invés de cantar uma nota com o bocão aberto, você precisa cantar essa nota e ainda fazer os lábios vibrarem, ou produzir bolhas com um canudo dentro de uma garrafa, etc.

E qual a utilidade disso, afinal? Pra que que eu vou querer treinar balançando lábios se na hora do show  eu vou é abrir o bocão?

Bom, esse tipo de exercício é pra ser usado em treino e aquecimento, não em performances (mas isso também não está proibido, apesar de ser meio estranho hehe). Quando você faz uma nota com a boca semi ocluída, uma pressão é formada na saída, fazendo uma força de volta, contra a prega vocal (literalmente uma pressão de trás pra frente). 

Cada tipo de semi ocluído gera um nível de pressão de volta. Existem diversos tipos deles e cada um, por ter um efeito único, pode ser usado para fins únicos também. Por isso é importante ser orientado por um profissional capacitado nesse tipo de técnica, para não fazer nada errado, prejudicial, ou à toa.

Essa pressão dentro da boca que o exercício gerou faz com que a prega vocal consiga vibrar mais fácil e com menos atrito, sendo um ótimo treino de técnica, extensão, condicionamento, drives, etc, pois ele te faz treinar uma função com economia de atrito.

Segundo Marcelo Saldías e Marco Guzman (2020) num artigo sobre os efeitos imediatos dos exercícios vocais com canudo na água, um exercício de trato vocal semi ocluído reduz o nível de esforço mínimo necessário pra produzir um som. 

Isso foi chamado por eles de “economia vocal”. Eles também disseram que, após uns minutos de treino usando este tipo de exercício (“canudo na água” no caso da citação que acabei de usar), os efeitos dele tendem a ir para a voz cantada.
Ou seja, após um tempo de exercícios usando esse tipo de técnica, você pode abrir o bocão e aproveitar seus efeitos agora sem o canudo, ou shaker, ou lábios vibrando.

Uma das conclusões do artigo foi que, se o exercício de trato vocal semi ocluído, num aquecimento, leva a voz para um estado de economia vocal, ele é um tipo de aquecimento muito eficiente. Afinal, fazer o mesmo som com menos desgaste é um objetivo bastante desejável, não é mesmo?

Enfim, SHAKER!
Shaker é um aparelho que foi feito para auxiliar a tirar catarro do pulmão e da traquéia. Ele não foi desenvolvido pensando em cantores, mas nós não temos limites quando se trata de ser criativo pra inventar coisas pra treinar canto hehe


O shaker, ao ser usado como exercício de canto, se torna um “exercício de trato vocal semiocluído de dupla fonte”. E assim o nome fica maior ainda hehe
E o que quer dizer dupla fonte? Simples: Tem mais uma fonte de vibração além da prega vocal. Exercícios com o Shaker fazem com que, além de vibrar a prega vocal, a pessoa precise fazer vibrar a bolinha que tem na ponta dele.

Isso aumenta a dificuldade, pois, com um obstáculo desses é necessário mais ar. E fazer essa bolinha de alumínio vibrar não é a coisa mais fácil do mundo hehe

Logo, a missão é conseguir fazer uma nota + mandar ar suficiente pra girar essa bendita bolinha, que não é nada fácil, durante o som.

Isso já nos traz alguma ideia de como ele poderia ser útil, não?

Se é preciso bastante ar pra vibrar a bolinha, e você precisa conseguir fazer um vocalize dessa forma, já dá pra imaginar que esse exercício vai estimular um bom fluxo de ar.
Um bom fluxo de ar é também oposto a cantar com tensão e constrição.

E o que o estudo citado lá no início concluiu?

Prós:
  • Cantar com o Shaker estimula um maior funcionamento dos músculos expiratórios, pois é preciso de um apoio mais eficiente para fazer a bolinha girar com regularidade durante o vocalize.
  • Faz com que “cantar tenso” seja uma tarefa impossível (desde que use corretamente).
  • Ajuda a pessoa a cantar com a cabeça numa posição melhor, pois se sair da posição, seja pra cima, ou pra baixo, a bolinha deixa de balançar.
  • Faz com que fique muito fácil atingir agudos (pois, com a absurda redução de tensão no articulador laríngeo, se torna muito mais fácil subir para notas super agudas).
  • A voz fica mais fácil e mais “potente” após um treino com o aparelho.

Contras:

  • Pode causar um ressecamento e cansaço dos músculos adutores após um uso muito prolongado, pois o fluxo de ar é muito alto. Logo, use apenas como uma parte do treino. 

O estudo é muito preliminar, mas já foi mostrado que há benefícios em usar esse aparelho para treino e preparação da voz cantada. 
Se ele estimula um canto com muito fluxo de ar, é importante então pensar em quais técnicas se beneficiariam mais disso. Nem toda técnica vai usar um modo de fonação tão relaxado. No texto sobre os diversos tipos de semiocluídos eu vou explicar esse assunto.

E esse tipo de exercício é restrito apenas para fonoaudiólogos ou qualquer um pode usar?

Ô perguntinha perigosa. A resposta é: Não, o shaker não é restrito a fonos. E sim, qualquer um pode usar, afinal, não existe nenhuma lei proibindo alguém de soprar um canudo na água. MAS, importantíssimo, evite fazer qualquer coisa sem treinamento e instrução adequadas, pois aí o resultado pode ser qualquer coisa, menos o que você gostaria. É totalmente possível se machucar e causar danos se for usar um negócio desses do jeito errado.

Mas... Se o professor for treinado e capacitado a usar e trabalhar com esse tipo de exercício, ele tem todo o direito de aplicar em aula.
Então fica um alerta. Cuidado: Se não sabe usar, não use. Não seja auto-didata com exercícios de trato vocal semiocluído, principalmente com os que usam aparelhos. 

Eles são maravilhosos, mas busque um professor que tenha capacitação para fazer um bom trabalho com eles.

Então qual o veredicto? Ele serve para aquecimentos e treinos vocais? Foi visto que sim! Que tenhamos cada vez mais pesquisas sobre este e muitos outros aparelhos de trato vocal semiocluído.

O objetivo desse texto, que era resumir o estudo científico sobre o uso do Shaker na voz cantada e explicar de forma fácil e didática pra quê que ele serve, está cumprido. 

Nos vemos em algum outro post. Não sei com que regularidade farei esses textos, mas a ideia é resumir meus aprendizados com artigos científicos sobre ciência da voz e colocar aqui de forma simples e fácil. De vez em quando até com alguma piadinha hehe

O importante é que a ciência seja divulgada de forma responsável, com fontes, bibliografias e bastante embasamento.

Até a próxima,

Ian Gonçalves

(@IanGGoncalves no Instagram e ian.voz@icloud.com no email)




terça-feira, 8 de maio de 2018

Workshop de Pedagogia e Ciência Vocal

Depois de anos escrevendo sobre ciência da voz cantada, exercícios, técnicas e pedagogia vocal em geral, e após muitas solicitações de criar um curso onde pudesse demonstrar tudo na prática, e ensinar de forma direta como aplicar esse conteúdo, surgiu a oportunidade com a parceria com meu amigo e colega, professor de canto Michael Álex.

O Workshop de Ciência e Pedagogia Vocal será uma oportunidade única de reunir todo o conhecimento e experiência que nós dois obtivemos ao longo dos anos de treinos e estudos e colocar na prática os conceitos mais atuais das ciências que estudam a voz, seja na parte de anatomia, fisiolgia, acústica vocal, neurologia, etc. 

O grande diferencial deste evento será a forma de traduzir todos os conceitos em atividades práticas e direcionadas à evolução dos cantores.
Além dos temas básicos de respiração, ressonâncias, registros, modos de fonação, postura, etc, vamos unir nossas experiências em diferentes gêneros musicais para abordar distorções vocais, melismas, vibratos, etc. E tudo poderá ser trabalhado utilizando o suporte de tecnologias como softwares de acústica em tempo real, tubos, canudos, máscaras, etc.

Não perca essa oportunidade única de unir teoria e prática em 2 dias de muita troca de experiências e foco em como trabalhar e desenvolver as vozes dos cantores, seja para você ou para seua alunos ou clientes.

O curso é focado em cantores, professores de canto, preparadores vocais e fonoaudiólogos, e quem se inscrever até o final de maio terá um belo desconto.

Inscrições no e-mail pedagogiaecienciavocal@gmail.com

Nos vemos por lá!!!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Liberando a musculatura do trato vocal

No último texto falei sobre o delicado equilíbrio entre a necessidade de energia e prontidão para cantar e relaxamento para deixar que essa energia não se transforme em musculatura rígida.

Eis que surge um video bem interessante de uma professora de canto americana, que baseia sua metodologia vocal no trabalho de corpo, mostrando uma massagem na cabeça, por dentro e por fora, para eliminar os pontos de tensão dos músculos da região.

O vídeo está em inglês, mas dá pra acionar as legendas do youtube, ou apenas tentar seguir o que ela faz.

Parece esquisitão, mas pode ser bastante útil para quem encontra limitações no uso do trato vocal por conta da falta de flexibilidade e liberdade para o movimento que esses "pontos duros" trazem. 
E o que um treino eficiente de canto deve fazer, é isso, buscar todos os fatores que podem interferir na melhor produção vocal e resolvê-los, e a interdisciplinaridade (trabalho que envolve diversas perspectivas) é a chave para encontrar esse trabalho completo.
Ela vai massagear as têmporas, a articulação entre cabeça e mandíbula (ATM) e todo seu entorno, e depois partir para massagens dentro da boca, soltando a bochecha, lábios, língua, etc.. Isso aí mais pescoço, ombros e um trabalho bom de postura vai te deixar prontinho pra um melhor desempenho.
Confira o vídeo!!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O que são os exercícios de canto que eu faço?

Hoje vou falar um pouco sobre exercícios vocais, mais especificamente sobre os Exercícios de Trato Vocal Semiocluído (ETVSO), como são chamados pela ciência vocal, e vou usar como base uma aula ministrada pelo fonoaudiólogo Felipe Moretti no CEV - Centro de Estudos da Voz além de muito material de pesquisa que já fiz sobre o assunto.

– Mas ahn, ETVSO??? – Calma, eu explico, você já deve ter feito algum deles.
Vamos pensar nesse nome: “Trato Vocal” eu já falei bastante sobre, é todo o “tubo” por onde o ar passa depois que vibra pelas pregas vocais, do topo da laringe até a saída da boca e/ou nariz. “Semi” de meio, ou quase lá, e “ocluído”, que significa fechado. Podemos traduzir como exercícios de boca quase fechada. Qualquer exercício vocal feito fechando a boca de alguma forma pode ser chamado de TVSO.

Exemplos de ETVSO são: vibração de língua (trrrr), vibração de lábios (brrrr), sons de consoantes fricativas como zzzz, vvvv, gggg, boca chiusa ou humming, fazer nota com a mão na boca, constrição labial, sopro com a bochecha cheia de ar, notas utilizando canudo, tubos finlandeses, lax vox, copo, máscaras, etc., até mesmo vogais fechadas como o U podem entrar nessa categoria. Existe uma infinidade deles e cada um tem uma aplicação diferente e específica, mas todos se enquadram nesse mesmo grupo.

Esses exercícios saíram das terapias nas clínicas fonoaudiológicas e invadiram as aulas de canto, mas nem todo mundo sabe para que servem, apenas fazem, normalmente como aquecimento vocal. uma pena, pois um ETVSO bem feito pode ser muito útil, ou muito prejudicial se mal feito. – Você já fez? Faz? Faz por qual razão? O que você pensa ou quer fazer com eles? Comente aí embaixo.
A mão está pressionando levemente a região ao redor dos lábios, para evitar que alguma musculatura rígida dificulte a vibração.
Vamos entender pra eles servem.
Na terapia de voz eles têm suas utilidades bastante pesquisadas, mas vou falar somente sobre sua ação no canto e preparo da voz.

Segundo Titze, Verdolini, Linklatter e Lessac, os ETVSO:
  • Aumentam a interação entre a fonte sonora (vibração de pregas vocais) e tudo o que vem acima delas, promovendo uma produção vocal mais eficiente, ou seja, com menos fadiga, ruídos ou alterações indesejáveis.
  • Durante esses exercícios as pregas vocais vibram de forma mais leve, pois são levemente separadas (abduzidas) pela ação da pressão que fechar a saída de ar gera dentro do “tubo” (sopre um canudinho fechando o outro lado e você vai sentir essa pressão, que vai embora quando soltar o dedo).Você deve sentir nesses exercícios uma expansão do trato vocal, pois a pressão retroflexa vai “abrir os espaços”.
  • O fluxo aéreo também é reduzido, bem como o impacto do contato entre as pregas vocais.
Entretanto, tudo isso acima vai depender da forma como esses exercícios forem planejados. ETVSO pode ter diferentes níveis de resistência e o resultado muda completamente de acordo com isso. Podem ser utilizados para relaxamento ou fortalecimento, escolher a ferramenta errada pode acabar com uma voz. Imagine indicar um exercício de fortacelimento pra uma voz cansada... Imagine indicar relaxamento pra uma voz já fraca. Daí a importância de entender MUITO do assunto antes de sair aplicando.

Agora que você já sabe o que esse tipo de exercício faz, você vai entender quando usá-lo, por qual razão, e o principal, como fazê-lo.

Se durante alguns tipos de ETVSO pode existir uma expansão do trato vocal e o contato das pregas vocais no ciclo de vibração suavizado e o fluxo aéreo reduzido, nesse caso, eles vão ajudar você a:
  • Desenvolver as sensações como as de “abrir o fundo da garganta”, “ampliar espaços”, “levantar palato mole”, etc. ou como quiser chamar essa expansão no trato vocal. Tal sensação é importantíssima para evitar constrições indesejáveis e aquela sensação de estrangulamento que pode ocorrer em um canto tenso.
  • Diminuir a força para cantar, pois você vai aliviar as estruturas envolvidas no canto, e ainda vai aprender a gerenciar melhor o volume utilizando a ressonância, e não a força, principalmente no ar.
  • Cansar-se menos, pois com a carga menor de esforço seus músculos vão trabalhar de forma mais livre, com mais flexibilidade na voz e menos desgaste.
O cientista vocal Ingo Titze demonstrando fonação no canudo
Na hora de fazer os exercícios, pense em qual objetivo você quer atingir com eles, tente entender as respostas que seu corpo oferece a cada estímulo, assim eles serão úteis pra você, caso contrário, será apenas um som qualquer. Principalmente, não faça-os com força e mantenha uma boa postura.

Detalhe, não é só fazer os ETVSO e pronto, sua voz adquiriu novas habilidades ao estilo Matrix, não, é preciso fazer um trabalho para transportar esses benefícios para a voz cantada “pra valer”, mas a ideia é fazê-los para desenvolver a percepção do funcionamento correto, as sensações vibratórias e ir calibrando-as na voz.

Exercício nenhum ensina a cantar, apenas estimula determinado comportamento vocal.

Espero ter ajudado!!

quarta-feira, 20 de março de 2013

O melhor exercício para aquecer a voz

Constantemente ouço a seguinte pergunta: “Vou cantar amanhã, qual o melhor exercício usar para aquecer a voz?”.

Como se responde uma questão cheia de “se” e “depende”, como essa?

Antes de saber qual o melhor exercício, é preciso saber o que você quer fazer.
É como chegar na academia e dizer: “Estou aqui para me exercitar, por onde começo?”. O instrutor vai querer saber qual seu objetivo, se é condicionamento físico, definição estética, fortalecimento, etc. vai querer saber se você é atleta, se tem algum problema, e fará uma avaliação física pra ver como responde seu corpitcho ao esforço. Ou um bom instrutor deveria fazer isso.

Pois um bom professor de canto também precisa saber disso, precisa saber qual seu objetivo, o que você quer cantar e em que nível quer fazê-lo, e principalmente, o quanto você está disposto a se entregar a essa atividade. Um cantor profissional da Broadway terá a mesma necessidade de alguém que canta no luau? Jamais. Uma pessoa que canta desde os 5 anos e vem de uma família onde até o papagaio é afinado estará no mesmo estágio que um aspirante a cantor que não canta nem no chuveiro? Dificilmente. Os dois podem cantar bem? Já discuti esse assunto AQUI e vimos que sim, é possível, mas tudo ao seu tempo.

Cientes dos “dependes” estruturais, vamos aos “dependes” momentâneos.

Então você não treina, nunca fez um exercício vocal e agora arruma um show e quer algo pra aquecer. Legal, por quê? Por que disseram que aquecer é importante?
Fiz um breve texto sobre a importância do aquecimento AQUI, falando que ele serve para relembrar os aspectos técnicos, ativar a concentração, preparar o corpo, alongando e relaxando e mudando os ajustes da voz falada para a voz cantada, mas esse treino tem que ser um hábito. Qualquer exercício vocal mal feito não vai te trazer benefício algum, pelo contrário, pode prejudicar totalmente sua voz. Pode causar lesões, tencionar músculos, criar barreiras psicológicas, etc.

Qual seria então o melhor exercício para aquecimento?

A resposta ideal:
  • Exercícios que tranquilizem o ritmo respiratório e preparem os músculos envolvidos na respiração para o uso mais complexo do canto.
  • Exercícios que diminuam ou eliminem a tensão nos ombros, pescoço e musculatura extrínseca da laringe (aquela que está em volta dela).
  • Exercícios que preparem o trato vocal e articulação para o uso mais intenso.
  • Exercícios que relembrem as sensações de ressonância que serão usadas na performance.
  • Exercícios que alonguem as pregas vocais, deixando você pronto para executar as variações de registros que forem necessárias.


A resposta prática: Faça o que você está acostumado a fazer e que você sabe que dá certo. Show não é hora de inventar. Mantenha-se hidratado e tranquilo para fazer o que tem que ser feito. Se não der resultado talvez o que você está acostumado a fazer não sirva e você precise aprender coisas novas, e esses aprendizados devem se tornar habituais e não apenas algo que “disseram que é legal antes de cantar”.

Se for possível você fazer um aquecimento com um profissional te orientando, certamente isso surtirá efeito positivo, mesmo que nunca tenha feito nada antes, pois ele deve saber o que e como você vai trabalhar nesse aquecimento. Tentar sozinho sem saber como fazer, apenas com uma lista de exercícios não o ajudará em nada. 

Não se iluda ou busque atalhos, procure sempre o caminho certo para trabalhar sua voz, esqueça o “fácil e rápido”, aposte no “trabalho e dedicação”, sempre funciona.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Aquecimento vocal

Sempre que alguém entra em contato comigo sobre aulas de canto eu pergunto se tem costume de aquecer a voz antes de aulas, ensaios, apresentações, etc., e é impressionante a quantidade de gente que não tem esse hábito ou não sabe por que aquecer a voz é tão importante.

Existem inúmeras pesquisas científicas que mostram a importância e necessidade do cantor se preparar aquecendo a voz por diversas razões, fisicas e até psicológicas.

Assim como para qualquer esporte ou atividade muscular de maior exigência, o aquecimento vocal é indispensável antes dos estudos, aulas, ensaios e apresentações. Além de nos preparar para um desempenho mais eficiente do canto ele ajuda a garantir a saúde e longevidade do nosso instrumento, a voz.
Ele proporciona os ajustes neurofisiológicos para o canto (turbina o cérebropara enviar cada comendo necessário paras as regiões corretas da produção vocal), aperfeiçoa o tônus muscular onde precisa de força e relaxa a musculatura onde precisa dealívio, e ajusta o fluxo aéreo da respiração. Além disso, estimula a propriocepção (a capacidade de sentir a si mesmo), aumenta o fluxo sanguíneo para as pregas vocais e relembra os aspectos técnicos da emissão. Além disso, muitos cantores relatam que após o aquecimento se sentem mais confiantes, concentrados e preparados para atuarem, o que é imprescindível.
Esse aquecimento da voz é feito por meio de exercícios de alongamento e relaxamento de todas as partes envolvidas no canto e no corpo, como um todo, corrigindo a postura, tranquilizando a respiração, diminuindo a ansiedade (que as situaçãoes de canto estão normalmente envolvidas) e mudando os ajustes vocais da voz falada para a voz cantada (bem mais intensa e com maior exigência).

A preparação vocal tem como objetivo uma melhora no som produzido pelos cantores, com maior qualidade harmônica (sommais cheio, mais vivo), menor sobra de ar (voz menos soprosa), maior flexibilidade para as pregas vocais se encurtarem ou esticarem (durante a produção de graves e agudos) e melhora na intensidade e articulação dos sons.

Outra coisa a ser levada em consideração é que cada cantor ou cada tipo de repertório terá necessidades e exigências diferentes, portanto, o aquecimento terá maior efetividade se for pensado individualmente e de forma específica para o que será executado.

Ao final do período de utilização da voz é importantíssimo também o desaquecimento vocal, falaremos disso depois.

Não seja preguiçoso com sua voz!!!