quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Músculos da laringe e a voz - Parte 1

Você, que frequenta este site e se aprofunda no estudo de canto, já está cansado de ouvir falar em TA, CT, adução, abdução, etc., mas às vezes isso pode ser um pouco, ou muito, confuso.

Tenho alguns textos sobre anatomia e fisiologia da laringe (que você pode encontrar no menu ao lado), mas agora vou me aprofundar mais nesse tema, retomando a palestra que ministrei para o 1º Congresso Brasileiro Online de Voz Cantada.

A laringe é aquela “caixa” que fica no pescoço, logo acima da traqueia e abaixo da base da língua, e nela estão os músculos responsáveis pela produção do som da nossa voz, a nossa fonte de vibração.

Todos vocês já sabem que lá dentro estão as pregas vocais, que são dobras musculares, que quando vibram mais rápidas fazem notas mais agudas e quando têm ciclos de vibração mais lentos emitem notas mais graves, vulgarmente chamadas de som fino e som grosso.

Aqui vale comentar que na fisiologia e na acústica não existem notas altas e baixas, o que muda é a velocidade dos ciclos (das pregas vocais ou ondas sonoras). Inconscientemente, essa percepção equivocada leva muitos cantores a se esticarem pra alcançar as “notas altas”, criando tensão e prejudicando a liberdade laríngea. A Idea de altura vem das partituras, onde as notas mais agudas são escritas em linhas superiores no pentagrama e as graves nas linhas inferiores.
Onda sonora: Na primeira linha, temos
 mais ciclos por segundo, gerando
frequências mais agudas que
na segunda

Voltando.

Eu gosto de pensar na laringe como a junção de dois sistemas que devem ser distintos e independentes, e quando não o são, criam problemas como as “quebras na voz” ou limitações de notas, é o que acontece com expressões como “voz de peito” e “voz de cabeça”, que são cheios de significados específicos mas empregados de forma generalista.

Um desses sistemas é responsável pelo controle de frequência de vibração, a velocidade da vibração das pregas vocais, que comentei acima.
Todos sabem que a contração de TA (par de músculos tireoaritenóideos) “encurta” a prega vocal e CT (par de músculos cricotireóideos) as “alonga”, mas não é só isso, e deve-se tomar muito cuidado aqui.

Estamos falando na tensão das pregas vocais, e muita coisa está envolvida.

Primeiro, é importante entender que o TA é dividido em 2 partes: tireovocal (interno) e tireomuscular (externo). Cada uma dessas partes faz uma coisa diferente. Para o controle de frequência, o TA interno é o que nos importa (alguns estudos dizem que é o externo, outros o interno, mas deixo essa questão para a ciência resolver), é essa parte que contrai diminuindo o comprimento das pregas vocais (para as notas graves).

Os músculos CAL (par de músculos cricoaritenóideos laterais) também contribuem, com os graves mais graves, mas falaremos mais sobre eles no segundo sistema.

Para deixar as pregas vocais alongadas, e as notas mais agudas, além de uma ação predominante dos CT sobre os TA internos poderíamos solicitar a ação de um par de músculos que têm como função primária abrir espaço na laringe para que possamos respirar, são os CAP (par de músculos cricoaritenóideos posteriores). Quando ativados, além de realizarem a abdução (abrir a glote), eles poderiam, segundo o Dr. Hollien, proporcionar um alongamento extra das nossas pregas vocais se conseguirmos ativar apenas parte de seus feixes.
Visão dos feixes dos CAP por trás, a flecha A indica o feixe que deveria ser contraído para aumentar o alongamento das pregas vocais.
A ação de CAP se opondo aos AA, TA e CT, é vital para quem canta notas hiperagudas, e foi notada em 1972 (Thomas Gay e equipe) e depois abordado novamente em artigo de 1979 de Hary Hollien, que disse que qualquer ideia de que a tensão das pregas vocais analisada somente por TA e CT deveria ser considerada incompleta. Entretanto, ainda hoje é utilizada, seja de forma pedagógica para simplificar aos alunos não tão interessados na fisiologia ou por quem não conhece essa hipótese.

Importante frisar que esse mecanismo de alongamento "para trás" não é 100% comprovado, mas seu conceito é algo aceito por grandes cientistas da voz, como o Prof. Ingo Titze, que em estudo publicado em 2016 disse que além do alongamento das pregas vocais, uma outra ação seria mais eficiente, levando as notas para regiões mais agudas, independente do tamanho da laringe ou espaço para alongamento, que é limitado por questões físicas, variando entre os indivíduos. Segundo o professor, aumentar a densidade do ligamento das pregas vocais aumentaria a tensão da "corda" e possibilitaria esses ajustes, e o melhor, segundo o próprio estudo, é que isso pode ser alcançado com treino vocal, através de manobras como o alongamento.
Essa representação de uma prega vocal mostra o ligamento vocal, que é formado pelas camadas intermediária e profunda (intermediate e deep) da lâmina própria.
Ainda existem imagens de cantores super agudos que conseguem "fechar" parte das pregas vocais, deixando a parte que vibra menor, e consequentemente, mais rápida (aguda).

São muitas formas de ir além do comum, e um bom método de treino de canto precisa estar atento às diferentes possibilidades para não restringir a habilidade e expressividade dos cantores.

Veja que não estou falando sobre registros vocais tradicionais, esqueça "voz de peito" e "voz de cabeça" aqui. São termos recheados de significados estéticos que estão começando, timidamente, a cair em desuso, apenas falo sobre notas graves e notas agudas e o que a ciência tem de mais atual sobre o tema.

CLIQUE AQUI para ver o segundo sistema que atua na fonte sonora.

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