quinta-feira, 21 de abril de 2016

A voz de Freddie Mercury - Ciência x Sensacionalismo

Em fevereiro de 2016, 4 cientistas (dentre eles, o Dr. Lindestad, que tive o prazer de conhecer em 2012 e o Daniel Zangger-Borsch que já citei em texto sobre distorções vocais) publicaram um artigo fazendo uma análise sobre a voz do Freddie Mercury. Infelizmente, uma interpretação desse estudo muito ruim caiu na internet e está causando tumulto, e agora tem a tradução dela pro português piorando ainda mais as coisas. É hora de esclarecer as coisas.
Obviamente, o estudo não foi feito com videolaringoscopias ou qualquer tipo de exame no próprio Freddie Mercury, pois ele morreu em 1991. Arquivos de áudio, gravações a capella e de entrevistas foram utilizados para obtenção de análise acústica e um cantor (o Daniel) imitando o próprio foi filmado.

De cara, temos algumas variáveis a considerar: gravações comerciais são feitas com microfones, que modificam de alguma forma o espectro de harmônicos na voz, e mais, podem ser modificadas por equalização e diversos efeitos como compressor, dobra, delay, etc.. Além disso, um cantor imitando o Freddie Mercury pode soar parecido sem fazer exatamente as mesmas manobras fisiológicas, infelizmente não temos o áudio da gravação para comparar com o original.

Vamos aos resultados obtidos na pesquisa:

Analisando entrevistas, tentaram determinar a frequência média da voz falada de Freddie. Em cada entrevista, uma média diferente foi observada, mas a média da média, deu 117.3Hz, que, segundo o estudo, é tipicamente encontrada em cantores barítonos, mas essa terminologia das classificações vocais é bastante questionada atualmente, principalmente se tratando de canto popular. Na versão veiculada pela mídia, Freddie é descrito como um super-humano por ter voz de barítono e cantar notas de tenor, uma interpretação bastante peculiar do artigo.
Nas músicas que analisaram, encontraram um alcance de F#1 a G4 (ou F#2 a G5 dependendo da notação), com grande domínio de registro (controle de TA e CT) e de Modos de Fonação (entre soproso e tenso), porém, não há dado fisiológico para afirmar isso.

O vibrato dele tem uma média de 7.2Hz, ou seja, 7.2 oscilações por segundo, que é mais rápido que um vibrato desejado no canto clássico. Na versão midiática, descrevem isso como “a corda vocal vibra mais rápido que o normal”. Se a prega vocal vibrasse mais rápido que o normal ele estaria cantando com a afinação mais aguda do que deveria, ou seja, desafinado, o que não tem qualquer relação com produção de vibrato. Esse vibrato mais rápido, descrito no estudo, é tido como próximo ao tremor de voz. Na “interpretação”, podemos ler o absurdo dizendo que é uma marca que nem o Pavarotti conseguiu. Entenda, no canto lírico, um vibrato com essa variação é totalmente rejeitado e considerado mal feito, pois esteticamente não é aceito (No canto clássico ocidental o ideal está entre 5.4Hz e 6.9Hz, dependendo da idade e envolvimento emocional do o trecho cantado). No rock não há essa restrição estética, e encontramos cantores com vibratos mais rápidos e mais lentos, independente da qualidade do som produzido.

Uma variação dessa interpretação do estudo “revela” que Mr. Mercury é capaz de realizar uma técnica rara chamada de sub harmônicos, similar ao dos milenares cantores da Mongólia. O que isso quer dizer na realidade? Sub harmônico é o que chamamos de distorção vocal, ou mais popularmente drives, e por mais que eu goste do Fredão, e ele é dos meus favoritos, não dá pra dizer que é raro, certo? Quem escreveu a matéria não fazia a menor ideia do que estava escrevendo.
Esse efeito foi visto na análise acústica tanto dos áudios originais quanto do “cover” gravado pelo Daniel ZB, e nas filmagens da laringe do Borsch perceberam a ação das pregas vestibulares causando a distorção, que é o mecanismo fisiológico utilizado pelos praticantes do canto gutural mongol, como visto em artigos anteriores, como do próprio Dr. Lindestad.

O mais interessante, é que todos esses pontos que mencionei (e outros mais) a serem considerados estão no artigo original, mas o sensacionalismo feito em sites de “notícias” é maior que a vontade de passar a informação correta. Frases como "ciência comprova quem Freddie Mercury é omaior cantor da história" chama mais a atenção que "Artigo faz análise da voz de Freddie Mercury e não cria listas bizarras pois esse não é o trabalho de alguém sério"
"Pra quem divulgou o artigo sobre mim"
Eu já disse, adoro Queen e acho o Freddie Mercury um gênio, provavelmente um dos 10 vocais mais importantes da história do rock, mas tratar ciência vocal como “prova de miraculismo” é revoltante, pois quem não for olhar o original vai sair repetindo essas viagens e o mito sobre o canto vai perdurar. Um estudo sério foi feito por cientistas sérios e uma penca de “jornalistas” acabam com tudo por pura preguiça de conferir as coisas, ou falta de conhecimento sobre o assunto, ou só a boa e velha ganância mesmo.

Como sempre digo, cheque as fontes, investigue e não compartilhe informação que você não tem certeza que é real. 

Quem quiser ler o original (melhor do que sair compartilhando meu texto sem saber se estou falando a verdade também ;): http://www.tandfonline.com/doi/full/10.3109/14015439.2016.1156737
Dr. Baken, eu e Dr. Lindestad

6 comentários:

  1. Boa, Mauro!
    Esclarecimentos fundamentais hj e sempre!
    Sou sua fã!
    Bjbj

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    1. Obrigado Monica, a fãzisse é recíproca, hehe

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  2. Mauro Andrea até compartilhei na minha página seu artigo, muito bom mesmo parabéns!!!!;;

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    1. Que bom que gostou Tatiane, esse tipo de coisa me deixa doido, hehe
      Obrigado!

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  3. cheguei aqui por acaso, buscando alguma informação sobre a Sandra Espiresz, e acabei nesse post com o qual concordo completamente. desde que essa matéria começou a circular por aí, achei que deveria ter alguém pra comentá-la de um ponto de vista mais técnico e menos (ou nenhum pouco) sensacionalista.

    abraços!

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    1. Sandra foi uma grande amiga que me ensinou demais.
      O pior é que esse texto está cada vez mais fazendo sucesso.

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