terça-feira, 15 de maio de 2012

OK, vou fazer aula de canto. Lírico ou Popular?

Muitas pessoas tem a dúvida: “Devo estudar canto lírico ou canto popular? Qual o melhor?”

De acordo com artigos publicados por Jeannette Lovetri em junho de 2011 as diferencias na produção vocal e no som final, consequentemente no estudos, são enormes, e são as seguintes:

O canto erudito surgiu nas cortes da nobreza e na igreja e foi desenvolvido para o entretenimento e serviços religiosos. A técnica trouxe a beleza e a força necessária para os cantores serem ouvidos facilmente e levou séculos para se tornar popular entre as pessoas “comuns”.

O canto lírico necessita de volume, entre 110-120 decibéis (para se ter uma ideia, um caminhão chega a 100 dB, acima de 85 dB a exposição contínua pode causar danos aos ouvidos), a faixa de frequência da ressonância da voz que deve ser amplificada está entre 2800 e 3200hz (o chamado “formante do cantor”. É o que permite que um cantor seja ouvido através de uma orquestra, que ressoa aproximadamente em 900hz). O som normalmente tem um vibrato que pode variar de ¼ de tom pra cima e pra baixo ou às vezes 1 semitom em passagens mais expressivas.


O som deve ser brilhante, quente, poderoso, mas também flexível e aveludado, não duro. As consoantes devem ser claras durante a maior parte da extensão de notas. A boca deve abrir tranquilamente nas notas altas e fortes (frequência e intensidade), mas rosto e pescoço não podem ficar contorcidos. A mandíbula deve se mover livremente. O som deve ser claro, não ofegante ou nasal em um corpo forte e também alinhado.

As pesquisas indicam que a laringe deve ficar em uma região mais baixa no pescoço e as pregas vocais são pressionadas firmemente quando se canta. Nas mulheres o registro alto (voz de cabeça) deve ser forte e predominante, diferente dos homens, que tem domínio da voz de peito (registro baixo).

No repertório deve se aprender diferentes nuances entre estilos do canto lírico, épocas, países, compositor, tradição e língua cantada (inglês, alemão, francês, italiano, etc.).

Um bom cantor lírico deve ter pelo menos 2 oitavas de tessitura (região confortável e de maior proveito cantar), um cantor popular pode não precisar de tanto, mas seria bom ter.

No canto lírico, normalmente, não se usa amplificação eletrônica (microfone). Não se altera o tom nas óperas, mas pode-se alterar para recitais e a margem de modificação rítmica e de improvisação deve obedecer a uma série de regras de acordo com o que se canta. Geralmente os “cantores clássicos” treinam até encontrarem um determinado tipo de voz que se encaixa em um determinado tipo de papel nas óperas, com timbres, cores e peso específicos. Alguns conseguem se encaixar em mais de um tipo de papel ou mudar de um para outro.

Já o canto popular...


Com poucas exceções, o canto popular (teatro musical, jazz, rock, pop, gospel, R&B/soul, country, folk, rap, alternativo, sertanejo, etc.) surgiu da voz falada. Na maioria dos casos servia para satisfação pessoal ou cantada na comunidade para o entretenimento, com forte influência da cultura negra, e normalmente é utilizada a linguagem coloquial ou regional.

Cada um dos estilos também tem suas características específicas em termos de expressão musical, forma e tradição. O jazz influenciou o blues, R&B, rock, soul, pop e gospel (este é mais antigo, e derivado dos “Negro Spirituals” cantado no sul EUA em 1800).

Uma das formas de emissão primarias, encontradas no teatro musical, rock, pop, blues, etc. é o Belting. Ainda há muito a ser estudado sobre isso e muita controvérsia no assunto, mas o que sabemos até hoje é que as pregas vocais, assim como no lírico, se fecham fortemente, mas aqui a laringe se encontra um pouco elevada (não pode ser exageradamente), e isso muda a forma do trato vocal. É necessário um condicionamento muito bom para aguentar tal estresse vocal, mas deve-se sempre buscar fazê-lo sem tensão ou constrição na garganta. O som é forte, mas produzido livremente, o que o diferencia de um grito, e muitas vezes possui vibrato expressivo.
O som do belting geralmente é claro e pode ir para muito agudo. Às vezes se assemelha a um trompete, pode não ser “bonito”, mas é poderoso, emocional e impressiona.

A produção de som mais leve não necessita de respiração forte, mas ainda é importante desenvolver para ajudar com a saúde vocal, resistência e expressividade. Esse tipo de som depende muito de microfone e pouco de volume do cantor (como na Bossa Nova).
Desde o começo do século XX a música popular tem sido amplificada por microfones, o que possibilitou que pessoas com vozes de menor volume pudessem seguir carreira.

A pronúncia pode ou não ser coloquial. Dependendo do estilo a pronuncia muito precisa é considerada estranha. O vocalista pode ou não ter vibrato, que pode ir e vir quando quiser. O som pode ser claro, ofegante, ruidoso ou nasal, dependendo do artista e do estilo. Diferente do canto lírico, o popular pode usar sons barulhentos, soprosos, comprimidos, distorcidos, etc. As interpretações das canções podem variar em ritmo, melodia, harmonia, forma, estilo e até mesmo na letra.

O rock necessita de um bom equipamento eletrônico e é muito exigente fisicamente, no pop é esperado que o artista dance. Country, folk, sertanejo, quase sempre contam estórias. R&B e gospel tem uma série de ornamentos melismáticos (mudanças de nota na mesma sílaba).

O teatro musical varia um pouco, desde os mais antigos (legit) com influência do canto clássico e depois com influência dos outros estilos da música popular (rock, jazz, gospel, etc.).

As semelhanças...

Todos possuem uma laringe, duas pregas vocais, uma garganta, língua, mandíbula, boca e lábios, um par de pulmões, torso e cérebro. Os sons são feitos pelas mesmas partes e do mesmo jeito, o ar sai, as pregas vocais se fecham e vibram em uma nota (frequência). Várias pesquisas sugerem que o mecanismo funciona melhor quando o corpo está alinhado e ereto, e a respiração deve ser calma e profunda, sem tensão.

São poucos os cantores que conseguem transitar entre os estilos de uma forma eficiente. Muitos dos que tentam migrar acabam soando totalmente fora de contexto. Portanto, se você quer cantar ópera, faça aulas decanto lírico. Se você quer cantar qualquer estilo de música popular, faça aulas de canto popular pensando na especificidade de cada estilo.
Mas se você quer cantar lírico e popular sua dedicação terá ue ser dobrada, você terá que estudar as duas formas, e não apenas uma e cantar a outra do mesmo jeito, é isso que deixa o som deslocado no contexto.

Fuja de quem diz que é a mesma coisa ou de quem não sabe diferenciar um do outro, tenha em mente que é a sua voz, a sua expressividade e sua saúde vocal que estão em jogo.

8 comentários:

  1. Tirou minhas dúvidas!!!! Deus abençoe!

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  2. Texto sem referencia? Fontes tiradas de onde?

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    1. Viviane, a referência está no primeiro parágrafo: "...artigos publicados por Jeannette Lovetri em junho de 2011..."

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  3. As vertentes dos ajustes fisiológicos da voz me impressionam sempre. Boas argumentações sobre o assunto man! "...no lírico, se fecham fortemente, mas aqui a laringe se encontra um pouco elevada (não pode ser exageradamente), e isso muda a forma do trato vocal." Curti muito essa parte sobre o posicionamento laríngeo! #TOP

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  4. Mas o canto lírico não irá te dar mais flexibilidade? Falo sobre as aulas, pois tenho a impressão de qur com aulas de canto lírico o aluno se desenvolverá muito mais do que em aulas de canto popular...

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  5. Ola Maryah, o que dá flexibilidade ao cantor é um treinamento funcional. O estilo musical vai definir quais ajustes vc vai precisar, e se vc estudar um estilo e cantar outro poderá ter problemas na execução.
    Estude voz e depois aplique ao estilo que quer cantar.

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