quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os seios da face e a "voz na máscara"

Um dos assuntos mais controversos na história do canto é a ação dos seios da face no som, tanto que foi alvo de uma palestra do Prof. Dr. Johan Sundberg em sua passagem pelo Brasil.
Por séculos se especulou que eles serviriam como amplificadores, mas, o que dizem os estudos mais recentes sobre o assunto?

Antes, vamos entender sobre o que estamos falando.

Os seios da face, ou, seios paranasais, são cavidades cheias de ar no nosso crânio. Quem sofre com sinusite conhece bem. Veja o vídeo abaixo com um animação mostrando onde ficam.


Na história do canto encontramos muitos tratados e métodos elencando essas cavidades como amplificadores da voz, elas seriam caixas acústicas para nosso som, e deveriam ser exploradas para gerar mais volume na voz. 

Porém, essa ideia mudou quando cientistas começaram a fazer experimentos preenchendo as cavidades de cadáveres com leite, cimento, etc., e percebendo que elas não amplificavam coisa alguma, até que mais recentemente descobriram, por meio de modelos, que além de não amplificar o som, elas reduzem a intensidade de certas frequências, criam resistência no sopro de ar e “roubam” o som. O que descobriram é que os seios da face são na verdade, abafadores do som, e não amplificadores.

Mas e a famosa “voz na máscara” do canto lírico, que definitivamente melhora o som?

 - "Voz na máscara" é uma expressão utilizada por muitos professores de canto para denominar a sensação de vibração na altura dos seios da face durante o canto. Em alguns métodos de pedagogia vocal, "colocar a voz na máscara" projeta o som da maneira ideal para o canto, principalmente na ópera -

A resposta da questão anterior não é tão simples. Ainda não se sabe o que causam as sensações de vibração no rosto quando cantamos deste ou daquele jeito, mas para muitos cantores, elas servem como referência pessoal de um som adequado ou não, dependendo do que querem produzir. Serve como retorno sensorial do som produzido.

Podem ser reflexos de vibrações nas vias orais, podem ser impressões criadas pelo cérebro, autossugestão, qualquer coisa.

No final das contas, pouco importa na prática para que servem, e sim se isso te ajuda ou não no desenvolvimento vocal, se ajuda, continue fazendo, se não, saiba que não é por falta de qualidade sua. O importante é saber para o que não serve, assim evitamos perpetuar os mitos e lendas que envolvem a técnica vocal.

6 comentários:

  1. Olá Mauro, recentemente estudei sobre os seios paranasais e cavidade nasal e sempre fui admirador e pesquisador do recurso da Voz de Máscara. Obrigado pela postagem, ampliou demais minha concepção. Depois de muito experimentar em minha prática, opto em utiliza-la nas regiões graves, para diminuir um pouco o peso "Voz de peito" deixando mais estabilizada a impostação. Muito massa essa informação sobre esses estudos feitos ao longo do tempo. Entrando um pouco no assunto, dos seios paranasais serem abafadores e não amplificadores. Será que pode-se afirmar que o recurso sonoro está mais relacionado a "Hiponasalidade" do que a "Hipernasalidade"? Entendo que a expressão "Máscara" indica concentrar a ressonância nessa região. Mas esses ajustes acontecem por causa das Conchas paranasais?

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    1. Max, obrigado pelo comentário.

      infelizmente, não podemos afirmar muito mais do que está escrito aqui. O som chamado de "na máscara" é um som com maior amplificação dos hamrônicos agudos do que um som chamado de "abafado", e todo ajuste de ressonância acontece no trato vocal (faringe, boca e/ou nariz), e essa sensação de vibração, que ainda não se sabe a causa, serve como recurso de retorno proprioceptivo para nós cantores apenas.
      A ciência não encontrou nos seios paranasais essa imposrtância que muitas metodologias de canto encontram.

      O importante é não confundir ajuste muscular laríngeo com ressonância, que são complementares, porém diferentes.

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  2. Olá Mauro, parabéns por todas as matérias do seu blog, tenho acompanhado as suas postagens e tenho aprendido muito. Tenho um pedido a fazer sobre esse assunto "os seios da face" será que você poderia indicar um livro ou um artigo sobre essa pesquisa que apresenta essas novas descobertas? Desde já agradeço a sua atenção. Sérgio Marques.

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    1. Sergio, tudo bem?
      Muito obrigado, e fico feliz em saber que meu trabalho tem sido útil para você.

      Segue abaixo um dos últimos artigos à respeito do tema, mas não são necessariamente novas descobertas, isso já se sabe há algumas décadas.
      Nas referências do artigo tem vários outros que você pode conferir, com datas bem mais antigas

      Abs

      Havel M, Hofmann G, Mürbe D, Sundberg J: Contribution of paranasal sinuses to the acoustic properties of the nasal tract. 2014

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  3. mas será que esse experimento foi feito com o palato do cadaver fechado? Por que nas teorias de recionancia dos seios paranasais, essa técnica só funciona quando temos total controle sobre o palato, pois ele que faz a conexão com a voz de peito e voz de cabeça.

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    1. Olá, tudo bem?

      Foram feitos estudos também com modelos (tipo moldes).

      Antigamente se tinha essa visão de que registro era fruto da ressonância, hj já se viu que é o contrário, mas ainda tem bastante gente que mistura as coisas, por se basear em textos de décadas ou séculos passados.

      Cuidado pra não confundir ação da fonte (pregas vocais) e filtro (ressonâncias). Quem faz conexão da chamada voz de peito pra chamada voz de cabeça é a fonte, as ressonâncias podem ajudar ou atrapalhar, mas não são elas que definem os registros segundo as linhas de pensamento mais atuais das pesquisas em voz.

      Abraços!!

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