quarta-feira, 14 de junho de 2017

Configuração da laringe nos Modos de Fonação

Em texto anterior (VEJA AQUI) falei sobre os diferentes Modos de Fonação, é hora de ver como ficam as pregas vocais e a laringe em cada um deles, para tentarmos compreender essas variações.

Temos uma série de músculos influenciando na forma como as pregas vocais vão vibrar, e ao longo da história uma infinidade de termos foram utilizados para denominar os diferentes timbres que elas produzem, desde os registros de peito, cabeça e falsete, que antes se referiam à ressonância e depois, com o começo das investigações fisiológicas, migraram para a laringe, até expressões que surgiram como marketing de cada método lançado por aí.

Os modos de fonação foram sendo aperfeiçoados ao longo dos anos de estudos e ficaram famosos na ciência vocal com o trabalho do professor e foneticista sueco Dr.Johan Sundberg, mas não parou por aí. Depois dele, muitos outros estudos e cientistas pelo mundo exploraram essa abordagem, comparando o uso dos MdF em diferentes gêneros musicais, criando um banco de sons de cada modo e buscando a fundo a resposta do que cada um queria dizer.

O austríaco, Christian Herbst é um desses cantores e estudiosos que encontrou nos Modos de Fonação um norte mais preciso e desprovido de vontade de vender produto, ou de subjetividade que eles possuem por sua essência e origem investigativa, e aqui vou falar um pouco sobre o que ele trouxe em alguns artigos, incluindo um com o próprio Sundberg e mais um povo da Alemanha, Republica Tcheca e Suécia.

Herbst investigou diferentes emissões vocais e fotografou a laringe nos diferentes modos, e com essas informações conseguiu traçar um paralelo com tipos diferentes de adução (fechamento) das pregas vocais e registros, que vou tentar expandir aqui.

Antes de entrar nos Modos, vamos falar de adução, o tal do fechamento da glote, a hora em que uma prega vocal se aproxima da outra.

Em suas pesquisas, ele encontrou 2 tipos diferentes de adução, a quais chamou de Adução Membranosa e de Adução Cartilaginosa.
Basicamente, na adução membranosa, quem se aproxima é a parte da membrana da prega vocal, onde tem a mucosa que vibra, na adução cartilaginosa, aproximam-se as cartilagens aritenóides. Podemos deduzir que na primeira existe a ação do TA-Vocalis aumentando a borda das pregas vocais, e na seunda existe a ação dos Aritenóideos, ou InterAritenóideos, como preferir, aproximando as cartilagens, veja o esquema:
Aqui é possível ver na coluna esquerda, do "falsetto" que o musculo vocal está fininho, e mesmo com o fechamento das cartilagens no fundo (parte de baixo da laringe) o meio das pregas vocais não se apertam, diferente da coluna da direita, do "chest" onde o músculo vocal mais "gordinho" já cria contato nas pregas vocais mesmo com as cartilagens aritenóides mais "frouxas".

Tente identificar o mesmo efeito nas fotos abaixo
Para este pesquisador, a diferença entre voz de peito e falsete está no músculo TA interno, o vocalis, que quando acionado aumenta a borda de contato entre as pregas vocais, tal afirmação concorda com métodos de canto como o Somatic Voicework e os derivados do Speech Level Singing, como IVTOM e IVA, que utilizam essa nomenclatura tradicional.

Voltando aos modos de fonação...

No Modo Soproso temos uma abertura nas cartilagens que deixa escapar o ar, trazendo a sonoridade que batiza o modo, veja na imagem como o contato das pregas vocais não é completo. 

Aqui então, é possível dizer que os músculos AA estão descansando, CAL trabalha pra manter a aproximação das pregas vocais e e o Vocalis também dorme, é o famoso "falsete" nestes estudos chamado de "falsete abduzido", isso em qualquer sexo.

Apesar de falar em falsete, é importante dizer que não estou falando de grave e agudo, tudo aqui vai acontecer na mesma nota, e aí fica minha crítica, pois ninguém fala em falsete grave, mas sim, é possível utilizar a mesma configuração do falsete no grave... Bizarro, hein?

No Modo Fluido, CAL aproxima as pregas vocais, AA estão tranquilões na rede e Vocalis aciona. Herbst chama esse compotamento de "falsete aduzido", a boa e velha "voz de cabeça" para alguns. Você tem aqui um contato maior das pregas vocais, mas muito sutil, ainda com abertura da fenda posterior, que não é doença...

Já o Modo Neutro de fonação requer a ação de todo mundo, CAL, AAs e Vocalis. Todos participando de uma adução completa sem qualquer escape de ar, gerando um som cheio e vigoroso, o que muitas pessoas chamam de "voz de peito" (mas rola no grave e no agudo também). 

Lembrando, como falei no texto anterior, que essas alterações ocorrem de forma contínua, podemos supor que o "mix" está localizado entre Fluido e Neutro, podendo pender mais pra um ou mais pra outro, deixando a voz mais "leve" ou mais "pesada".
Chegamos ao final da jornada falando sobre o Modo Pressed, traduzido aqui como Tenso, mas que prefiro chamar de Firme, por que tensão é vista de forma perigosa.

Quem leu o texto anterior vai lembrar daquele modo intermediário e entender as coisas.

CAL, AAs e Vocalis já esão acionados, o que pode ser feito?
Não há consenso ou definição sobre esse tema, podemos supor uma ação do TA externo, já que neste modo há aproximação das pregas vestibulares, podemos supor que isso é fruto do aumento da pressão sub-glótica que tal modo solicita ou até pode ser algo externo ou um uso mais forte de todos esses músculos. 

Nas imagens abaixo fica claro como há o aumento de contato.
Modos de maior contato são observados normalmente em cantores de rock, gospel, blues e no belting. Também é possível encontrar este ajuste sendo chamado de Compression pelo Brett Manning, Curbing pelo CVT, Clamp pela Antropofisiologia Vocal, e muitos outros termos, mas não importa como você vai chamá-lo, apenas saiba que aqui, como há muito contato, você não vai querer forçar, então o volume acaba sendo reduzido, ao menos até desenvolvermos domínio completo desta função.

Este é o modo que muita gente chama de "errado", ou "voz na garganta", mesmo quando executados com perfeição

No neutro e mais ainda no firme, todos os músculos adutores estão bastante ativos, e esses músculos são compostos principalmente por fibras de contração rápida (lembre-se que a adução existe pra gente não deixar nada passar pro pulmão, então tem que fechar rápido) que têm resistência baixa. Exercitar esses músculos pra quem quer cantar gêneros musicais mais "pesados" é vital, e deve ser feito com paciência e continuidade, para podermos suportar tal nivel de exigência física pelo tempo que for necessário, sem sofrermos com fadiga ou abusando da pobre da mucosa, espremida e raspando aí no meio.

E você, já treinou suas duas formas de adução e todos os seus Modos de Fonação hoje?

2 comentários:

  1. Maravilhoso artigo, parabéns pela sua pesquisa!!!

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  2. Sempre somando ! Obrigada Mauro por compartilhar !

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