sábado, 2 de janeiro de 2021

Exercícios com canudo e evidências científicas

Oi pessoal, aqui é o Ian Gonçalves e trago mais uma postagem pro site.

Como estamos em tempos onde pessoas influentes falam que exercícios de trato vocal semi ocluído “são tudo marketing e não funcionam”, torna-se necessária uma maior divulgação científica sobre esse assunto. Estou aqui para dar argumentos contrários a essa ideia e esse artigo vai ajudar nisso. (Quando esse tipo de disputa desnecessária acontece, deixe para a ciência resolver, como já disse o Mauro Fiuza uma vez aqui no site, no artigo sobre fisiologia).

Em tempos recentes foi publicada uma tese de doutorado escrito por Greta Wistbacka, chamada Oral pressure and flow feedback components in semi-occluded vocal tract exercises

(Esse tema é bastante desenvolvido no curso do Mauro Fiuza sobre Pedagogia e Ciência Vocal.)

Eu vim trazer alguns pontos interessantes sobre um capítulo desta tese, que falou justamente sobre exercícios com canudo no ar. “Canudo no ar” se refere a exercícios com canudo sem que eles estejam. submersos em um recipiente com água, por exemplo.

Nesses casos, o principal fator que determina os efeitos desses exercícios é o diâmetro dos canudos. Ou seja, se ele é mais fininho ou não.

Estudos foram feitos analisando diversas categorias de efeitos nas pessoas que usam esses exercícios e agora vou listar eles aqui, de acordo com a tese publicada por Wistbacka. Lembrando que, segundo mencionado por Ayssa Santos (2020) em artigo, é importante fazer exercícios de trato vocal semi-ocluído por pelo menos 1 minuto para que ocorram efeitos na voz.

“Pressão retroflexa”:



Nesses exercícios, a resistência no fluxo de ar tem relação com a pressão que volta para dentro do trato vocal, causada pela semi oclusão ao ter que soprar por um canudo. Como o canudo não muda de tamanho e largura durante uma escala, ele oferece uma resistência fixa o tempo inteiro e isso é muito útil para treino de técnicas vocais, pois não dá pra “roubar nos agudos”. hehe

Se o canudo for mais fino, a pressão de volta é maior. Isso é abordado com muitos detalhes num artigo de Marxfield que irei comentar aqui mais pra frente no site.

Como foi investigado por Conroy et al (2014), fonação com canudo leva a uma redução no índice de Phonation Threshold Pressure (PTP). Esse nome se refere ao mínimo esforço necessário para se produzir um mesmo som. Abaixar esse índice é um objetivo valioso, pois conseguir fazer um mesmo som com menos esforço e atrito vai levar a uma maior saúde vocal, menos fadiga e maior controle e flexibilidade da voz. Quando a dificuldade e o cansaço diminuem, conseguimos fazer mais coisas com a voz, não é mesmo?

Trato Vocal:

Após investigações feitas por Guzman usando EGG, tomografia e ressonância magnética, alguns efeitos foram observados em cantores após exercícios com canudos no ar.

  • Maior espaço na cavidade oral;
  • Maior espaço faríngeo;
  • Maior espaço no tubo epilaríngeo
  • Redução no espaço velar
  • Palato se mantendo elevado 
  • Maior volume das cavidades orofaríngeas
  • Acréscimo no comprimento do trato vocal
  • Redução da posição vertical da laringe (abaixamento)
  • Fechamento da passagem nasofaríngea (tirando a nasalidade da voz)
Os benefícios são muitos!
Aqui deixo uma observação: Todos esses benefícios acima foram relacionados ao trato vocal em si e não à prega vocal. Isso em si já se contrapõe a certas ideias de que esses exercícios de trato vocal semi-ocluído (ETVSO) só servem para treinar o condicionamento das pregas vocais, dos músculos da laringe e mais nada. Como essa ideia é disseminada, essa observação é importante de ser feita.

Efeitos Acústicos:


Um termo mais acadêmico para essa “pressão retroflexa” é a “impedância”. Efeitos acústicos foram observados após exercícios com ETVSO. Um deles é um boost acústico na região dos formantes 3, 4 e 5, chamado por muitos de “região do twang”. Esse efeito, com alguns ajustes (e muito treino), pode levar ao que é chamado de “formante do cantor”. Um bom uso desse resultado acústico dá um poder muito grande na voz sem que a pessoa precise fazer mais força pra cantar. Segundo J. Sundberg, um uso muito eficiente dos formantes pode aumentar o volume de uma voz em até 100x sem que a pessoa precise aumentar o esforço.

Segundo Story et al (2000), adicionar um tubo artificial ao nosso trato vocal irá afetar todo o comprimento do mesmo, mudando o local de sensações das ressonâncias. 

Outro efeito foi que, em canudos mais largos, foi detectado o efeito de redução no consciente de contato das pregas vocais. Ou seja, houve uma redução no atrito entre as pregas vocais para se produzir um mesmo som (ou até melhor. Afinal, um canto mais conforto pode muitas vezes resultar num som “mais bonito”).

Uma outra observação foi feita em 1992 por Laukkanen: Um aumento de 1 a 3 dBs no som após exercícios com canudo. Isso. corresponde a uma sensação acústica de aproximadamente “dobrar o volume”. Esse foi um efeito imediato na voz, sem um aumento de esforço.

Aqui vale uma outra observação pedagógica: 

Estamos em tempos onde é disseminado o “canto de volume reduzido”, onde o cantor canta “baixinho e saudável” e o cantor confia que o microfone vai fazer esse baixo volume ser ouvido por todos.

Há uma problemática nessa questão: Conforme um cantor vá se tornando mais eficiente, há a possibilidade de que seus sons emitidos fiquem mais potentes, ou seja, mais altos. Esse efeito acontece por causa de uma maior eficiência na manipulação do trato vocal, que manipula e estimula ressonâncias, podendo amplificar o som produzido sem que tenha um aumento no esforço (como foi visto acima).

Nesse caso, se não tivermos cautela, corremos o perigo de estarmos “corrigindo” um ponto que não está precisando de correção, mexendo na técnica de um cantor que está cantando “alto demais” por estar sendo muito eficiente e não necessariamente “berrando”. 

Uma técnica muito eficiente pode trazer um maior poder acústico na voz do cantor. Ao tentarmos “corrigir” isso, caímos no risco de atrapalhar uma técnica saudável e bem ajustada de um bom cantor e acabar aumentando a tensão dele. Acabaríamos fazendo ele “reduzir volume” apertando e tensionando tudo, sendo que ele na verdade estava com uma técnica saudável e em dia.

Logo, sabendo disso, devemos tomar cuidado para saber diagnosticar corretamente. “O cantor está cantando meio alto... Seria tensão ou eficiência?” Saber responder essa pergunta irá te impedir de cometer alguns erros na hora de cuidar da voz de um cantor.

Enfim... Muita coisa, não é? E essas informações são apenas algumas. Existe tanta evidência científica disponível a favor dos ETVSOs que poderia ser crime dizer que eles não funcionam e não são úteis para ensinar técnicas vocais.

Sinta-se a vontade para pesquisar e ler artigos sobre esse tema. No site do Journal of Voice tem artigos para uma vida inteira só sobre isso.

Uma observação importante:

Esse artigo trouxe evidências científicas para defender o uso de ETVSO,  mas não ensinou sobre seu uso correto. O objetivo desse artigo foi mostrar evidências de que eles são realmente importantes e muito úteis. Não é recomendável fazer uso de ETVSO sem um treinamento adequado para isso. O curso do Mauro Fiuza ensina e capacita os alunos ao uso dessa categoria de exercícios.

Eles, se usados de forma errada, não atingem os objetivos desejados e ainda podem trazer danos para o cantor.

Faça aulas com alguém habilitado a usá-los, ou habilite-se.


Fico por aqui e até a próxima!

Ian Gonçalves (@IanGGoncalves / ian.voz@icloud.com)

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